Onde estão os Protestantes?

Os “evangélicos” estão perdendo a referência do que é pecado!

Tudo é relativo, forma de interpretação ou experiências pessoais. A palavra do Senhor é menos importante que a necessidade humana.


2º Timóteo 4:3 e 4

Porque virá tempos em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando-se as fabulas.

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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Abastecendo a Reforma

R.C. Sproul

Eu fico sempre intrigado quando vejo cartazes de igrejas a anunciar um avivamento que está próximo. Eles dão as horas e as datas em que a igreja será envolvida num avivamento. Mas eu me pergunto, como é que alguém pode  agendar um avivamento? Avivamentos verdadeiros são provocadas pela obra soberana de Deus através da agitação do Seu Espírito Santo no coração das pessoas. Eles acontecem quando o Espírito Santo vem para o vale de ossos secos (Ez 37) e exerce o seu poder para trazer nova vida, uma revivificação da vida espiritual do povo de Deus.

Esse tipo de coisa não pode ser manipulado por qualquer programa de humanos.Historicamente, ninguém marcou a Reforma Protestante. O avivamento Galês não estava na agenda de ninguém, nem o grande avivamento americano inscrito na agenda de ninguém. Estes acontecimentos épicos na história da igreja resultaram da obra soberana de Deus, que fez seu poder levantar as igrejas que se tornaram praticamente moribundas.

Mas temos que entender a diferença entre reavivamento e reforma. Reavivamento, como a palavra sugere, significa uma renovação da vida. Quando o evangelismo é uma prioridade na igreja, tal esforço normalmente trará reavivamento. No entanto, esses reavivamentos da vida espiritual nem sempre resultam em reforma. Reforma indica mudança das formas de pensar da igreja e da sociedade. Reavivamentos transformam-se em reformas, quando o impacto do evangelho começa a mudar as estruturas da cultura. Reavivamento pode produzir uma multidão de novos cristãos, mas esses novos cristãos têm de crescer em maturidade antes de começar a ter um impacto significativo sobre a cultura circundante.

Reforma pode envolver uma mudança para melhor. Não devemos ser tão ingênuos a ponto de pensar que toda mudança são necessariamente boas. Às vezes, quando sentimos que estamos na crise, ou que o progresso tem sido ridículo, clamamos por mudança, esquecendo-nos por um momento que a mudança pode ser regressiva ao invés de progressiva. Se eu beber um frasco de veneno, ele vai me mudar, mas não para melhor. No entanto, a mudança é normalmente boa.

Em nossos dias, temos visto o surgimento do que tem sido chamado de “Novo Calvinismo”, que tende a se concentrar principalmente sobre os chamados cinco pontos do Calvinismo. Este movimento dentro da igreja tem atraído uma grande atenção, até mesmo na mídia secular.

No entanto, seria prudente não identificar o calvinismo exaustivamente com os cinco pontos. Em vez disso, os cinco pontos funcionam como um caminho ou uma ponte para toda a estrutura da teologia reformada. Charles Spurgeon argumentou que o Calvinismo é meramente um apelido para a teologia bíblica. Ele e muitos outros Titãs do passado compreenderam que a essência da teologia reformada não pode ser reduzida a esses cinco pontos particulares que surgiram há séculos na Holanda, em resposta à controvérsia com os arminianos, que se opuseram a cinco pontos específicos do sistema de doutrina encontrados no Calvinismo histórico. Para os propósitos deste artigo, pode ser útil para olhar tanto para o que a teologia reformada é e não é.

A teologia reformada não é um conjunto caótico de idéias desconexas. Pelo contrário, a teologia reformada é sistemática. A Bíblia, sendo a Palavra de Deus, reflete a coerência e a unidade do Deus cuja Palavra é. Para ter certeza, seria uma distorção forçar um sistema exterior de pensamento sobre a Escritura, fazendo com que a Escritura se conformasse a ela como se fosse algum tipo de leito de Procusto. Esse não é o objetivo da sã teologia sistemática. Pelo contrário, a teologia sistemática verdadeira busca entender o sistema de teologia que está contido no âmbito geral da Sagrada Escritura. Não impõe ideias sobre a Bíblia, ela escuta as idéias que são proclamados pela Bíblia e entende-as de forma coerente.

A teologia reformada não é antropocêntrica. Isto é, a teologia reformada não é centrada em seres humanos. O ponto central da teologia reformada é Deus, e a doutrina de Deus permeia todo o pensamento reformado. Assim, a teologia reformada, por meio de afirmação, pode ser chamada teocêntrica. De fato, sua compreensão do caráter de Deus é  principal e determinante com relação ao entendimento de todas as outras doutrinas. Isto é, sua compreensão da salvação tem como factor de controlo – seu coração – numa particular compreensão do carácter soberano de Deus.

A teologia reformada não é anti-católica. Isto pode parecer estranho, já que a teologia reformada surgiu directamente do movimento protestante contra o ensino e a actividade do catolicismo romano. Mas o termo católico refere-se ao cristianismo católico, cuja essência pode ser encontrada nos credos ecuménicos dos primeiros mil anos da história da igreja, particularmente aqueles dos concílios da igreja primitiva, tais como o Concilio de Niceia no século IV e do Concilio da Calcedónia, no século V. Isto é, aqueles credos contêm artigos de fé comuns compartilhados por todas as denominações que abraçam o cristianismo ortodoxo, doutrinas como a Trindade e a expiação de Cristo. As doutrinas afirmada por todos os cristãos estão no centro e no coração do Calvinismo. O calvinismo não parte em busca de uma nova teologia e rejeita a base comum da teologia que toda a igreja partilha.

A teologia reformada não é católica romana em sua compreensão da justificação.Isto é simplesmente dizer que a teologia reformada é evangélica no sentido histórico da palavra. Neste sentido, a teologia reformada está forte e firme com Martinho Lutero e os reformadores magisteriais, em sua articulação da doutrina da justificação pela fé somente, bem como a doutrina da Sola Scriptura. Nenhuma dessas doutrinas é explicitamente declarada nos cinco pontos do calvinismo, ainda, em certo sentido, eles se tornam parte da base para as outras características da teologia reformada.

Tudo isto para dizer que a teologia reformada até agora transcende os apenas cinco pontos do calvinismo que é uma visão mundial. É pactual. É sacramental. Ela é empenhada em transformar a cultura. É subordinada à operação de Deus Espírito Santo, e tem uma moldura rica para a compreensão da totalidade do conselho de Deus revelado na Bíblia.

Por isso, não deve ficar sem dizer que o desenvolvimento mais importante, que trará a reforma não é simplesmente o ressurgimento do calvinismo. O que tem de acontecer é a renovação do entendimento do próprio evangelho. É quando o evangelho é claramente proclamada em toda a sua plenitude que Deus exerce Seu poder redentor para trazer renovação na Igreja e no mundo. É no evangelho e em nenhum outro lugar que Deus deu o Seu poder para a salvação.

Se queremos reforma, temos que começar com nós mesmos. Temos que começar a trazer o evangelho para fora das trevas, de modo que o lema de toda reforma se torna pós Tenebras lux – “. Depois de trevas, luz” Lutero declarou que cada geração deve declarar revigoradamente o evangelho do Novo Testamento. Ele também disse que sempre que o evangelho é clara e corajosamente proclamado, ele vai trazer conflito, e aqueles de nós que são inerentemente adversos ao conflito vão encontrar tentação de submergir o evangelho, diluir o evangelho, ou obscurecer o evangelho, a fim de evitar conflito. Nós, é claro, somos capazes de adicionar ofensa ao Evangelho por nossas próprias tentativas mal-educadas de proclamá-lo. Mas não há maneira de remover a ofensa que é inerente à mensagem do evangelho, porque é uma pedra de tropeço, um escândalo para um mundo caído. Ela trará, inevitavelmente, conflitos. Se queremos reforma, devemos estar preparados para suportar esse tipo de conflito para a glória de Deus.

Tradução: Fábio Silva

Fonte: http://www.ligonier.org/learn/articles/fueling-reformation/

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Arrogância: Principal tentação do reformado

 

Arrogância: Principal tentação do reformado -

por Rev. Naziaseno C. Torres

O que leva reformados ao caminho da arrogância e soberba? Essa pergunta pode soar estanha e imprópria. Entretanto a altivez e o orgulho espiritual é um pecado no qual muitos reformados caem. A razão para o deslize – por incrível que pareça - é causado pelo conhecimento doutrinário que se recebe. O que fazer com ele? A resposta a essa pergunta é que faz toda a diferença.
Diz o velho jargão que “conhecimento é poder”. É fato que aqueles que têm contado com a fé reformada - e se afadigam no estudo da mesma - estão à frente daqueles cristãos evangélicos que só conhecem superficialmente o Evangelho de Cristo. Os reformados estão entre os leitores de livros doutrinários e históricos, freqüentam simpósios e encontros, além de utilizar ferramentas da mídia eletrônica para se atualizarem nos blogs e sites. Esse conhecimento os separa e os distingue das massas alienadas fabricadas pelo raso evangelicalismo moderno. Como resultado alguns reformados se julgam superiores ao demais gerando, assim, soberba e arrogância.
Estranho esse proceder, pois quanto mais conhecimento obtemos de Deus mais conscientes deveríamos ficar da nossa miséria e falência. Como resultado Isso deveria nos levar ao quebrantamento e a servidão de tal forma que consideraríamos os outros superiores a nós mesmos.
Ao contemplar a glória de Deus no Templo, após uma profunda crise , Isaías em êxtase gritou: “Ai de mim! Estou perdido!”. O peso da glória divina esmagou toda a prepotência e vaidade do profeta - fê-lo conhecer sua insignificância e vileza. Além disso, logo após essa confissão, brotou uma identificação com o próximo de tal maneira que o levou ao serviço: “eis-me aqui”. Essa visão reformou completamente o profeta. O conhecimento de Deus o lançou ao povo a fim de instruí-lo na verdade. Eis um homem consciente da sua miséria e depravação com uma mensagem de perdão e esperança nos lábios. A contemplação da majestade de Deus não levou Isaías ao orgulho espiritual e nem ao isolamento dos demais homens.
Mas, hoje, em muitos casos, não é isso o que acontece. Por quê? É simples: muitos têm uma apreensão intelectual da Verdade, porém essa nunca desceu para o coração. Assim sendo, o conhecimento de Cristo e da sua doutrina quando não nos leva à humildade, inevitavelmente, nos conduz à soberba e, por que não dizer, ao farisaísmo.
Às vezes ouço a antiga oração ecoando por aí: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, arminianos, pentecostais e dispensacionalistas, nem ainda como um liberal; leio a Confissão de Fé duas vezes por dia e dou o máximo de tudo quanto ganho para comprar livros reformados, freqüentar congressos e simpósios”. Esses se consideram justos e desprezam os demais. Algo não muito raro no nosso meio.
Concluo enfatizando que precisamos de um calvinismo experimental - uma reforma que nos leva a uma experiência diária de real quebrantamento diante de Deus e humildade perante os demais homens. O “eis-me aqui” de Isaías precisa ser acompanhado pelo “Ai de mim! Estou perdido!”. São essas duas expressões que devem moldar o caráter do reformado, pois somente assim poderemos fazer diferença no nosso meio e na nossa geração. Então, quando o discurso e a prática estiveram presentes na nossa fé reformada seremos realmente relevantes para o mundo. Porém, se tivermos apenas a fé reformada sem a experiência de vida reformada estaremos falando de nós para nós mesmos – presos no gueto da nossa própria vaidade e futilidade. Medite nessas cousas!
Fonte: Ministério Beréia

terça-feira, 5 de julho de 2011

Em que Crê um Calvinista

Há, nas Escrituras Sagradas, uma demanda por transparência e definição! O profeta deve apresentar a visão de modo que até o corredor possa lê-la – em plena corrida! (Hc 2.2). Nossa palavra deve ser sim, sim! ou não, não! – sob pena de nos alinharmos com uma fonte maligna de informação (Mt 5.37). E existe um clamor por definição ainda no finalzinho da última profecia (Ap 22.11). Mesmo no início da Bíblia, já existe ordenação para evitar a confusão (Dt 22.5) – com a qual, aliás, Deus não se identifica (I Co 14.33).

Não costumo usar os termos calvinista e calvinismo, quando prego. A razão é simples: não é, geralmente, necessário. Refiro-me ao Evangelho e, pra mim e alguns outros (Charles Spurgeon, inclusive), dá no mesmo.

No entanto, às vezes, por motivo de clareza e compreensão, precisamos usar expressões histórica e teologicamente consagradas. Elas não definem o nosso time, a equipe à qual pertencemos. Definem, com mais precisão, nossa persuasão teológica.

Há professores de seminário que são pastores de igreja. Alguns deles ensinam uma coisa na Academia e outra no púlpito. Não dá pra saber o que eles realmente creem. Tivemos em nossa igreja um seminarista que relatou, atordoado, a confissão de um de seus professores de que não cria que houvesse alguém ouvindo nossas orações. O jovem interpelou o mestre, após a aula, e perguntou por que, então, o professor ainda orava. A resposta: “Por causa da angústia humana!”

Outros professores negam, em classe, o relato da Criação, a existência de personagens bíblicos, a autoria apostólica dessa ou daquela epístola. Tudo supostamente apoiado em estudos científicos, pesquisas mais profundas, etc, etc, etc. Só não têm a coragem de dizer a mesma coisa nos púlpitos de suas igrejas: o “povão” costuma ser mais conservador e alguém poderia perder o “emprego”. Okay, conheço toda aquela conversa sobre Academia e Igreja e a diferença entre elas. Mas estamos falando da imutável Palavra de Deus – ou, caso contrário, da palavra de deus nenhum! E estamos falando da formação de ministros da Palavra – ou, caso contrário, apenas de profissionais eclesiásticos.

Algumas vezes, sendo indagado por algum irmão sobre minha fé, percebo que ele ou ela não sabe em que crê um calvinista. Por isso, aqui vão umas poucas dicas:

- um calvinista crê que a Bíblia é a Palavra de Deus;
- crê que o ser humano precisa ser salvo de seus próprios pecados e da ira de Deus – mais do que de qualquer outra coisa;
- crê que somente o Evangelho da graça de Deus, que apresenta Cristo na cruz, pode salvar o pecador;
- crê que o Espírito de Deus é quem regenera o pecador, dispondo-lhe o coração para crer no Evangelho.
- crê que o pecador deve receber o Evangelho com fé e arrependimento, e viver debaixo do senhorio de Jesus Cristo em novidade de vida.
- que santidade ainda é importante, sim!
- crê na superioridade de uma cosmovisão bíblica sobre qualquer outra percepção da realidade;
- crê que a Criação existe para expressar a glória de Deus, em seu amor e bondade;
- que hoje, sobre a Criação, atuam tanto a Queda como a Redenção – de modo que nada deve ser nem aceito nem rejeitado a priori;
- que os mandados da Criação – cultural, social e espiritual – são uma ótima forma de expressar santidade no mundo, glorificando, assim, nosso Criador-Redentor;
- que a exposição, explicação e aplicação das Escrituras, por pregadores piedosos e fiéis, é a necessidade mais urgente nos púlpitos evangélicos;
- que amar as pessoas é a consequência necessária da sã doutrina;
- que amar a Deus sobre todas as coisas é a essência de nossa salvação!

Não! A predestinação não é a característica principal da doutrina calvinista. A característica principal da doutrina calvinista é a supremacia da glória soberana de Deus sobre todas as coisas!

Agora você já sabe, pelo menos um pouco, o que deve esperar desse curioso ser, o cristão calvinista. E, se você é calvinista e estava com a ênfase errada, há tempo para corrigir!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Podem viver em paz arminianos e calvinistas?

 

Por Renato Vargens

Como todos sabem eu sou calvinista. Creio nas doutrinas da graça! Acredito nos decretos do Eterno, creio em um Deus Soberano que governa tudo e todas as coisas! Creio na eleição incondicional dos santos, na depravação total, na graça irressistível, na expiação limitada e na perseverança dos santos. Entretanto, o fato de crer nisto não me torna inimigo ou adversário de irmãos em Cristo que pensam e creem diferentemente de mim.

A história  nos traz inúmeros relatos de arminianos piedosos. Gente coomo Dwight Moody, John Wesley, Tozer e Billy Graham são claros exemplos disso.

Particularmente eu conheço muitos arminianos que vivem a vida cristã com muito mais piedade do que os denominados calvinistas. Tenho a honra de ter entre os meus amigos, irmãos cuja linha teológica diferencia da minha. O pastor assembleiano Ciro Zibordi é um destes. Conversamos sempre ao telefone, almoçamos juntos pelo menos uma vez ao mês, compartilhamos o evangelho de Cristo, além de darmos boas risadas sobre as nossas diferenças teológicas.

Caro amigo, a luz disto afirmo sem titubeios que existem muito mais coisas que unem arminianos e calvinistas do que os possa  separar. Nossa luta é contra o adversário das nossas almas, como também contra os ensinos espúrios daqueles que afrontam as verdades FUNDAMENTAIS das Escrituras Sagradas disseminando entre os crentes  heresias destruidoras. 

Quanto ao resto? Ah! O resto é desnecessário!

Pense nisso!

Renato Vargens

Fonte: http://renatovargens.blogspot.com/2011/07/podem-viver-em-paz-arminianos-e.html#comment-form

terça-feira, 28 de junho de 2011

O Novo Calvinismo

A revista Time, em sua edição eletrônica, listou as 10 influências mais importantes no mundo na atualidade. O chamado novo calvinismo é listado em terceiro lugar [Link]. Abaixo, o texto traduzido na íntegra, pelo pastor F. Wellington Ferreira, membro da Igreja Batista da Graça, em São José dos Campos.

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O Novo Calvinismo

Se você quer realmente seguir o desenvolvimento do cristianismo conservador, rastreie as suas músicas de sucesso. No início do século xx, você ouviria “Rude Cruz”, uma celebração da expiação. Nos anos 1980, você teria compartilhado a intimidade do tipo “Jesus é meu amigo”, expressada na canção “Brilha, Jesus”. Hoje, as músicas de sucesso retratam cada vez mais um Deus que é muito grande, enquanto nós… bem, ouça a banda de David Crowder: “Estou cheio de terra/ Tu és o tesouro do céu/ Estou sujo de lama/ Inclinado à depravação”.

O calvinismo está de volta, e não apenas no âmbito da música. A resposta de João Calvino, no século xvi, aos excessos do catolicismo na forma de “compre o seu livramento do purgatório” é a mais recente história de sucesso do evangelicalismo [americano], uma história completa: com uma Deidade totalmente soberana que administra as coisas mínimas, uma humanidade pecaminosa e incapaz e, a combinação da conseqüência lógica, a predestinação: a crença de que, antes de o tempo surgir, Deus resolveu a quem salvaria (ou não), sem influenciar-se por qualquer ação ou decisão humana subseqüente.

O calvinismo, primo de outro pilar da Reforma, o luteranismo, é bem menos rígido do que os seus críticos afirmam. O calvinismo oferece uma Deidade firme que orquestra absolutamente tudo, incluindo a enfermidade (ou o arresto da casa!), por meio de uma lógica que talvez não entendamos, mas não temos de criticar depois que vemos os resultados. Nossa satisfação — e nosso propósito — se realiza apenas ao glorificá-Lo. No século xviii, o pregador puritano Jonathan Edwards revestiu o calvinismo de um misticismo quase extasiante. Mas logo o calvinismo foi vencido nos Estados Unidos por movimentos como o metodismo, que eram mais impressionados com a vontade humana. Grupos liberais descendentes dos calvinistas, como a Igreja Presbiteriana (EUA) [PCUSA], descobriram outra ênfase, enquanto o evangelicalismo perdia o interesse por uma doutrina consistente (havia o triunfo daquele Jesus amável e impreciso) e parecia relegar a pregação reformada fiel (a palavra reformado é um sinônimo de calvinista) a algumas poucas igrejas persistentes do sul [dos EUA].

Isso não acontece mais. Os ministros e autores neo-calvinistas não agem numa escala como Rick Warren. Contudo, ouça Ted Olsen, editor-chefe da revista Cristianity Today: “Todos sabem onde estão a energia e a paixão no mundo evangélico” — com o neo-calvinista pioneiro John Piper, de Minneapolis, com Mark Discroll, o brigão de Seattle, e Albert Mohler, presidente do Southern [Theological Baptist] Seminary, da grande Convenção Batista do Sul [dos EUA]. A Bíblia de Estudo ESV, com sabor calvinista, esgotou a sua primeira tiragem; blogs reformados como Between Two Worlds estão entre os links mais populares do ciberespaço cristão.

À semelhança dos calvinistas, os evangélicos mais moderados estão explorando curas para o desvio doutrinário do movimento, mas não podem oferecer a mesma segurança coletiva. “Muitos jovens cresceram em cultura de destruição, divórcio, drogas e tentação sexual”, disse Collin Hansen, autor de Young, Restless, Reformed: A Journalist’s Journey with the New Calvinists. “Eles têm muitos amigos; o que precisam é de um Deus.” Mohler disse: “No momento em que alguém começa a definir o ser ou os atos de Deus biblicamente, essa pessoa é levada a conclusões que são tradicionalmente classificadas como calvinistas”. De fato, essa presunção de inevitabilidade tem atraído acusações de arrogância e divisionismo desde a época de Calvino. Na verdade, alguns dos entusiastas de hoje sugerem que os não-calvinistas podem não ser cristãos. Pequenas disputas entre os batistas do sul [dos EUA] (que têm um grupamento concorrente de não-calvinistas) e trocas de ameaças on-line são um mau presságio.

Em julho próximo, se dará o 500º aniversário de nascimento de Calvino. Será interessante observar se o último legado de Calvino será a difamação protestante clássica ou se, durante estes tempos difíceis, mais cristãos que buscam segurança sujeitarão a sua vontade ao Deus severamente exigente dos primórdios de seu país.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Calvinismo e Capitalismo: Qual é Mesmo a Sua Relação

Alderi Souza de Matos

A questão de como se relacionam o calvinismo e o capitalismo tem sido objeto de enorme controvérsia, estando longe de produzir um consenso entre os estudiosos. O tema popularizou-se a partir do estudo do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) intitulado A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, publicado em 1904-1905. Numa tese oposta à de Karl Marx, Weber concluiu que a religião exerce uma profunda influência sobre a vida econômica. Mais especificamente, ele afirmou que a teologia e a ética do calvinismo foram fatores essenciais no desenvolvimento do capitalismo do norte da Europa e dos Estados Unidos.

Weber partiu da constatação de que em certos países da Europa um número desproporcional de protestantes estavam envolvidos com ocupações ligadas ao capital, à indústria e ao comércio. Além disso, algumas regiões de fé calvinista ou reformada estavam entre aquelas onde mais floresceu o capitalismo. Na sua pesquisa, ele baseou-se principalmente nos puritanos e em grupos influenciados por eles. Ao analisar os dados, Weber concluiu que entre os puritanos surgiu um "espírito capitalista" que fez do lucro e do ganho um dever. Ele argumenta que esse espírito resultou do sentido cristão de vocação dado pelos protestantes ao trabalho e do conceito de predestinação, tido como central na teologia calvinista. Isso gerou o individualismo e um novo tipo de ascetismo "no mundo" caracterizado por uma vida disciplinada, apego ao trabalho e valorização da poupança. Finalmente, a secularização do espírito protestante gerou a mentalidade burguesa e as realidades cruéis do mundo dos negócios.

Calvino de fato interessou-se vivamente por questões econômicas e existem elementos na sua teologia que certamente contribuíram para uma nova atitude em relação ao trabalho e aos bens materiais. A sua aceitação da posse de riquezas e da propriedade privada, a sua doutrina da vocação e a sua insistência no trabalho e na frugalidade foram alguns dos fatores que colaboraram para o eventual surgimento do capitalismo. Mesmo um crítico contundente da tese de Weber como André Biéler admite: "Calvino e o calvinismo de origem contribuíram, certamente, para tornar muito mais fáceis, no seio das populações reformadas, o desenvolvimento da vida econômica e o surto do capitalismo nascente" (O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 661).

Todavia, esse e outros autores têm ressaltado como a ética e a teologia do reformador divergem radicalmente dos excessos do capitalismo moderno. Por causa das difíceis realidades econômicas e sociais de Genebra, Calvino escreveu amplamente sobre o assunto. Ele condenou a usura e procurou limitar as taxas de juros, insistindo que os empréstimos aos pobres fossem isentos de qualquer encargo. Ele defendeu a justa remuneração dos trabalhadores e combateu a especulação financeira e a manipulação dos preços, principalmente de alimentos. Embora considerasse a prosperidade um sinal da bondade de Deus, ele valorizou a pessoa do pobre, considerando-o um instrumento de Deus para estimular os mais afortunados à prática da generosidade. A tese de que as riquezas são sinais de eleição e a pobreza é sinal de reprovação é uma caricatura da ética calvinista. Para Calvino, a propriedade, o lucro e o trabalho deviam ser utilizados para o bem comum e para o serviço ao próximo.

Em conclusão, existe uma relação entre o calvinismo e o capitalismo, mas não necessariamente uma relação de causa e efeito. Provavelmente, mesmo sem o calvinismo teria surgido alguma forma de capitalismo. Se é verdade que a teologia e a ética reformadas se adequavam às novas realidades econômicas e as estimularam, todavia, o tipo de calvinismo que mais contribuiu para fortalecer o capitalismo foi um calvinismo secularizado, que havia perdido de vista os seus princípios básicos. Entre esses princípios está a noção de que Deus é o Senhor de toda a vida, inclusive da atividade econômica, e, portanto, esta atividade deve refletir uma ética baseada na justiça, compaixão e solidariedade social.

Inserido de <http://old.thirdmill.org/files/portuguese/70079~11_1_01_9-42-58_AM~Calvinismo_e_Capitalismo.html>

Reforma Calvinista

► Reforma Calvinista

Reforma calvinista - Surge da tentativa fracassada de Zwinglio de implantar a reforma luterana na Suíça. Ela é retomada por Bullinger e pela união dos zwinglianos com a igreja de Calvino, em 1549. Pela dogmática do francês João Calvino, refugiado em Genebra, o homem está predestinado à salvação ou à condenação. Pode salvar-se quem santificar a vida cumprindo seus deveres. A Igreja e o Estado devem estar separados, com predomínio da primeira.

Ética protestante - Calvino considera o cristão livre de todas as proibições não explicitadas nas Escrituras, o que torna as práticas do capitalismo lícitas, em especial a usura, condenada pela Igreja Católica. De acordo com a teoria da predestinação, a idéia de que Deus concede a salvação a poucos eleitos, o homem deve buscar o lucro por meio do trabalho e da vida regrada. Surge a identificação da ética protestante com o capitalismo, que se torna atraente para a burguesia.

João Calvino (1509-1564), francês e seguidor das idéias luteranas, se estabeleceu em Genebra (Suíça), onde escreveu As Instituições Cristãs. Nessa cidade começou a pregar a sua doutrina, que tinha muitos pontos em comum com o luteranismo. A diferença mais importante se refere à doutrina da salvação. Para Lutero, como vimos, a salvação se dá pela fé e para Calvino pela pré-destinação. Baseando-se em Santo Agostinho, Calvino diz que nós viemos ao mundo pré-destinados por Deus a sermos salvos ou condenados. Desta forma, a nossa salvação não depende da fé e nem das boas obras, mas sim da escolha divina.Os sinais da escolha divina se manifestariam na vida dos indivíduos. O trabalho, a pureza de costumes, o cumprimento dos deveres para com a sociedade e a família seriam alguns desses sinais. Esse cidadão teria também a sua vida abençoa­da por Deus, resultando no progresso econômico.

O estudioso alemão Max Weber, na obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, mostrou a relação existente entre o calvinismo e o desenvolvimento do capitalismo. Segundo esse autor, o calvinismo favorece a acumulação capitalista, prescrevendo uma vida dedicada ao trabalho e à poupança.

Coincidência ou não, os países do norte da Europa, onde o capitalismo mais se desenvolveu, localizam-se exatamente nas áreas onde a reforma calvinista mais se implantou.

Uma das principais conseqüências do cisma provocado por Lutero no seio da cristandade foi a difusão de suas idéias como um rastilho de pólvora por toda a Europa Central, onde se concentravam os burgueses enriquecidos e os príncipes interessados no confisco dos bens da Igreja.

A Reforma foi aprofundada por alguns de seus seguidores, com particular ênfase a João Calvino (1509 – 1564) que dinamizou o movimento protestante através de novos princípios, como o da predestinação absoluta, que enfatizava o quanto uma pessoa estava “sendo abençoada por Deus” uma vez enriquecesse e o quanto estava predestinada à danação eterna uma vez pobre, doente e miserável... Quem nisso acredita trabalha como louco para “provar” a seus vizinhos, pelos aspectos exteriores de suas posses e bem-estar físico e material que é um “vaso reservado para a salvação”.

Pense: se você fosse um burguês enriquecido preferiria a pregação de um sacerdote católico a acusá-lo de desonestidade, heresia por haver enriquecido através da prática condenável do lucro e da usura ou a pregação de um sacerdote protestante a informar que a sua riqueza é um sinal de que está predestinado para a salvação eterna? Não é de admirar que os países mais prósperos do mundo capitalista professem a fé protestante em seus mais diversos matizes.

A Expansão do Calvinismo

A partir da Suíça, os pregadores calvinistas conseguiram difundir sua dou­trina em várias partes da Europa. Na Inglaterra os calvinistas ficaram conhecidos como puritanos. Foram perseguidos e imigraram em grande número para a América. Na Escócia, ficaram conhecidos como presbiterianos, e na França como huguenotes.

A burguesia encontrou no calvinismo a doutrina adequada à seus interesses e ao seu modo de vida. Incompatibilizada com o princípio católico do justo preço e da proibição da usura, a burguesia abraçou a nova doutrina.

Autoria: Daiane Lara

Calvinismo e Capitalismo: Análise das Idéias de Max Weber e H. R. Trevor-Roper.

 

Introdução

Quais as causas da prosperidade de grande parte dos países da Europa? Qual a relação entre a religião protestante e o êxito industrial, econômico e social que tais países obtiveram? Há, de fato, esta relação?

Estas são algumas perguntas comumente formuladas pelos teólogos, economistas e sociólogos que se debruçam em análises históricas para tentar explicar o fenômeno do capitalismo em terras européias.

Neste artigo apresentaremos, de forma resumida, duas propostas distintas. A primeira, apresentada por Max Weber que em sua obra, “A Ética Protestante e o espírito do capitalismo”, procura identificar na religião protestante, especialmente o calvinismo, uma íntima relação entre a moral cristã e o progresso econômico. Posteriormente, avaliaremos as proposições de H. R. Trevor – Roper, em sua “Religião, Reforma e Transformação Social”, que pontua outras possibilidades para explicar a relação da prosperidade européia em terras protestantes. A ÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO

De acordo com Max Weber, sociólogo alemão nascido no século XIX, o rigor moral da religião calvinista, que rivalizou com o luteranismo o posto de segmento majoritário do movimento de Reforma Protestante, é o embrião do capitalismo que foi conhecido no mundo. A isto se devem alguns fatores. Em primeiro lugar, Weber enxerga na doutrina da predestinação, um dogma essencial do calvinismo, a base do individualismo típico e necessário ao capitalismo, pois como o indivíduo não deve esperar pela mediação da Igreja para obter o favor de Deus, conforme as postulações da teologia católica, mas, pelo contrário, ele só pode contar com a graça divina, não havendo meios externos de aproximação com a divindade, então, para se assenhorear da certeza da salvação, o homem precisa identificar em si as evidências da eleição, procurando, assim, na atividade profissional, em cumprimento de sua vocação, as mesmas, pois, de acordo com Weber, o êxito profissional seria uma das maneiras distintas de se identificar a própria eleição. Outro aspecto importante nos argumentos de Max Weber é de que não só a preocupação dos calvinistas era com a própria salvação, embora fosse este, de fato, o seu núcleo dominante, pois o homem medieval era intensamente aflito com a questão do destino eterno de sua alma, mas, além disso, havia também a ênfase reformada na glória de Deus, manifestada por meio da agência dos eleitos no mundo. Destarte, os calvinistas, de acordo com Weber, lançavam-se em seus trabalhos, não só para confirmar o próprio chamado ao Reino de Deus, mas também queriam ver este Reino se estabelecendo sobre o mundo e tal processo somente seria viável mediante a militância engajada dos eleitos. O mundo, então, deveria refletir o Reino de Deus. Os valores do alto deveriam ser impressos na sociedade. Assim, a cultura, a política, a economia, a educação, a família, o trabalho deveriam sinalizar tais valores e é neste contexto de reflexão que o empenho dos calvinistas foi derramado. À medida que a sociedade se tornasse cada vez mais próspera e justa, Deus, seria exaltado. É a prática do postulado “Soli Deo Glória”, em que os calvinistas compreendiam que tudo o que fazemos, pensamos e ansiamos tem como meta na vida à Glória de Deus. Weber identifica neste item uma força que impulsionava a ética calvinista e que também faz parte do nascedouro do capitalismo.

Em terceiro lugar, Weber Identifica na desconfiança calvinista acerca das emoções e sentimentos humanos outro aspecto que contribuiu para o capitalismo, pois tais subjetividades poderiam produzir um mascaramento da realidade e das prioridades do homem. Portanto, a objetividade racional era fortemente recomendada por Calvino, segundo Weber. Esta austeridade levou a uma inevitável descarga sobre as atividades que fossem objetivas. Tudo que distraísse a atenção deveria ser evitado, pavimentando o fluxo de nossa vida ao empreendedorismo tão valorizado nas potências capitalistas modernas. Para Weber, o calvinismo foi uma forma criativa de asceticismo, porquanto era uma ascese moral, pois não implicava na retirada do eleito do mundo, conforme o monasticismo católico pontificava. Era uma ascese das preferências e prioridades identificadas e tinham como finalidade a transformação do mundo para a glória de Deus. Diferentemente dos monges medievais que se enclausuravam nos mosteiros para o serviço de Deus, o calvinismo, nas considerações de Max Weber, propunha uma separação não física do mundo, mas sim, e apenas, moral, pois nele (no mundo) serviriam a Deus, afastando-se do que fosse frívolo e desnecessário, mas, ao mesmo tempo, engajado nele, buscando, através do trabalho árduo e sistemático, a sua transformação.

De acordo com o sociólogo alemão, a doutrina da predestinação, a ênfase no mandato cultural para a glória de Deus e a austeridade de vida, compuseram as poderosas forças gravitacionais que agiram sobre o homem a partir do século XVI, contribuindo para a formação de uma nova ordem econômica: o capitalismo. E por quê?

Primeiro, porque o capitalismo enfatiza o self mad mam, isto é o homem que não depende de ninguém, mas que se faz sozinho. A ênfase na justificação pela fé somente, que vem a nós, somente pela graça soberana de Deus aos predestinados, tornou o homem solitário e único no seu encontro com Deus. Essa responsabilidade individual, não mediada por sacerdotes ou pela igreja, esboça o sentimento de dever que o homem tem para com o seu destino, não dependendo ou esperando por ninguém. O self mad mam capitalista é o homem que tem o seu destino na mão. Não depende de instituições. Não depende de sua família. Não depende do Estado. Ele é responsável. Sua salvação econômica e social não pode ser mediada. O seu destino e progresso dependerão de seu próprio desempenho, somente. Esta postura capitalista, ou melhor, este espírito capitalista, Max Weber enxergou no protestantismo, especialmente no protestantismo calvinista.

Além disso, a ênfase no trabalho para a glória de Deus deixou como herança ao capitalismo que a atividade profissional, especialmente a comercial, era digna. Tão digna que Deus a recebia como louvor à sua honra. O fruto da atividade comercial, o lucro, tão mal visto por círculos católicos à época (de acordo com alguns comentaristas), foi elevado à categoria de nobre e através de seu ganho a sociedade podia ser mantida. O lucro era a resposta de Deus à vocação bem empenhada. Nada mais justo. Esta dignidade do empreendimento comercial e do lucro seria especialmente válida para a semeadura do capitalismo nas nações protestantes, embora seja contestada a idéia de que Calvino realmente tenha ensinado isso e o próprio Trevor-Roper declara que Max Weber tampouco colocou tal sentença na pena de João Calvino. Mas, apesar de tais contestações, não nos surpreenderia se esta representasse um desdobramento posterior das idéias do reformador de Genebra por parte de alguns. Finalmente, a austeridade permitiu uma concentração das forças produtivas na livre empresa. Já que as emoções, os sentimentos, as amizades, as festas eram vistas como sendo descontroles, distrações e desperdícios, toda a energia da vida, então, foi canalizada para o trabalho, o único dever real do homem, o que fortaleceu a atividade econômica. Apesar da lucidez e da atração que as idéias de Max Weber podem exercer, contudo, estão longe de serem consensuais. Há outras idéias e tentativas de responder sobre a origem do capitalismo e se há de fato alguma relação de seu embrião histórico com a Reforma Protestante. É o que veremos mais adiante.

RELIGIÃO, REFORMA E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

Professor de história da Universidade de Oxford por vinte e três anos, H. R. Trevor-Roper, possui conclusões diferentes acerca da origem do capitalismo nas potencias protestantes. Primeiramente, Trevor-Roper propõe um período diferente do de Weber como marco do capitalismo. O historiador postula alguns problemas que fragiliza as conclusões de Weber, vejamos: Em primeiro lugar, Trevor-Roper apresenta que empiricamente a tese de Weber não passa no teste, pois nações que se mantiveram na tradição religiosa católica, como é o exemplo da Áustria e da França e que, portanto, não gozavam do mesmo rigor moral e das concepções doutrinárias dos calvinistas que lastrearam o sucesso econômico dos países onde foram beligerantes, contudo, progrediram à semelhança dos países protestantes. Ao mesmo tempo em que nos pergunta o porquê da Escócia, com forte tradição calvinista e recursos naturais generosos, não teve o mesmo ímpeto desenvolvimentista que a anglicana Inglaterra. Para Trevor-Hope, situações como estas são pontuais na hora de avaliar com cautela alguns axiomas propostos por Weber.

Em segundo lugar, Trevor-Roper também aponta para o fato de que nem todos os calvinistas eram rigorosos em sua piedade e nem todos agiam conforme suas crenças, colocando em xeque, então, o depósito moral que Weber alega possuir os calvinistas e que tanto foi primordial no desenvolvimento das potências protestantes. Na verdade, Trevor-Roper indica até mesmo a circulação nas trincheiras morais por parte de alguns calvinistas, haja vista que muitos, mesmo defendendo confessionalmente o calvinismo, ajudaram a financiar causas católicas contra os protestantes e isso por causa do lucro e poder. Em terceiro lugar, Trevor-Roper também pontua que muitas das nações que abraçaram o calvinismo como expressão da fé cristã protestante não se desenvolveram economicamente por causa de tais crenças, mas sim porque em seus territórios circulavam comerciantes estrangeiros (flamengos) que já eram empreendedores em seu país de origem e uma vez expulsos de sua terra natal, encontraram em países como a Holanda, por exemplo, as circunstâncias necessárias à livre empresa. Hoper faz questão de dizer, inclusive, que as idéias calvinistas sobre economia pouco efeito fizeram sobre os naturais de Escócia, Holanda e Suíça. E, mesmo cem anos após a militância de João Calvino, não se produziu um único grande empresário calvinista em terras suíças.

Trevor-Roper afirma categoricamente que havia fortes movimentos capitalistas antes da Reforma Protestante, especialmente capitaneada por Lisboa, Antuérpia, Milão, só para citar alguns. Tais centros eram economicamente ativos e foram eles que deixaram a herança do capitalismo para o século XVI e não a ética calvinista.

Para Trevor-Roper a confusão começa quando Weber não percebe que o que aconteceu foi tão somente à emigração destes capitalistas para as regiões onde afluíam às idéias protestantes. Eles levaram o conhecimento e as técnicas de mercado para tais lugares, fugindo das perseguições que lhes eram impostas. Na verdade, o que para Weber foi uma contribuição doutrinária e prática do calvinismo, para Trevor-Roper tudo não passou de contingência histórica, pois tais empreendedores aportaram em bolsões calvinistas, mas, independentemente de onde estivessem, levariam seus conhecimentos de mercado a efeito, até mesmo para lhes garantir a sobrevivência, possibilitando assim o progresso econômico de qualquer maneira. Destarte, para Trevor-Roper, o calvinismo levou a fama, sem merecer, de padrinho do capitalismo nas proposições de Max Weber.

Trevor-Roper é conclusivo ao afirmar que perseguições praticadas por autoridades católicas contra alguns poderosos homens de negócios na Europa que compartilhavam das idéias do humanista Erasmo de Roterdã, o que atraiu o ódio da Igreja Católica, foi o que forçou tais empresários a fugir para ambientes mais seguros, geralmente em países protestantes, sendo este, enfim, o evento catalisador para o florescimento do capitalismo em domínios calvinistas. CONCLUSÃO Nossa proposta foi à abordagem resumida de duas proposições distintas que explicam a origem do capitalismo e qual a relação deste com a Reforma Protestante. Avanços no intuito de chegar a conclusões mais aprofundadas serão necessários em investigações posteriores. O assunto é rico. O contexto histórico situado é amplo. O tema é instigante. Outros autores precisarão ser convocados à contribuição. De uma maneira ou de outra, mesmo que não sejam satisfatórias, as possíveis respostas nos ajudarão a chegar, pelo menos, mais perto das perguntas abaixo:

Protestantismo e Capitalismo são irmãos? Seus encontros históricos foram meramente acidentais? Um deriva do outro? Ou são gêmeos? Eis uma boa assertiva para um futuro próximo.

Soli Deo Glória!!!

REFERÊNCIAS

TREVOR-ROPER, H. R. Religião, Reforma e Transformação Social. Lisboa: Editorial Presença/ Martins Fontes, 1972.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Martin Claret. 4ª ed, 2001.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

É pecado se definir como calvinista?

Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma coisa e que não haja entre vós divisões; antes, sejais inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer.
Pois a vosso respeito, meus irmãos, fui informado, pelos da casa de Cloe, de que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de cada um de vós dizer: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo.
Acaso, Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vós ou fostes, porventura, batizados em nome de Paulo?
Dou graças a Deus porque a nenhum de vós batizei, exceto Crispo e Gaio; para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. Batizei também a casa de Estéfanas; além destes, não me lembro se batizei algum outro.
Porque não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho; não com sabedoria de palavra, para que se não anule a cruz de Cristo. Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus.
Pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos instruídos. Onde está o sábio? Onde, o escriba? Onde, o inquiridor deste século? Porventura, não tornou Deus louca a sabedoria do mundo?
Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação. Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. (1 Coríntios 1:10-24)
Nenhuma palavra define melhor a pós-modernidade do que o relativismo. Em um mundo sem absolutos morais ou estéticos (o que é belo, afinal?), não é de estranhar que os conceitos tenham se tornado incômodos. Usar nomes para definir posições políticas, econômicas e até mesmo teológicas tornou-se algo abominável, inclusive para cristãos. Rotular ou ser rotulado tornou-se um pecado mortal, a moda é tentar conciliar diferentes correntes, ainda que contraditórias. Quanto mais indefinido, melhor.
Dentro das igrejas protestantes, o repúdio aos rótulos chega a tal ponto que, para muitos, definir-se como calvinista, luterano ou arminiano é um pecado. Seria o mesmo erro cometido pela igreja de Corinto quando um dizia que era de Paulo, outro de Apolo e um terceiro de Cefas (Pedro). O certo é apenas se identificar como cristão. Certo?
Errado. Creio que esse tipo de pensamento é simplista demais. Sim, há horas em que a identificação com o calvinismo ou qualquer corrente teológica se torna algo pecaminoso e doentio. Mas, da maneira apropriada, o rótulo pode sim ser útil. Tudo depende do coração.

A moda é ter várias identidades, tantas, que ninguém possa ser rotulado. Quadro de Andy Warhol.
Quando é pecado
Os rótulos se transformam em um grande problema acontece quando eles nos levam a dividir o Corpo de Cristo. Quando o apóstolo Paulo critica os grupos de Corinto, a sua maior preocupação é manter a unidade da Igreja. Os coríntios estavam tão preocupados em afirmar seus pontos de vista e afinidades que estavam se esquecendo que eram parte de um povo.
Em Corinto, aparentemente, os grupos elegiam um teólogo-modelo e o colocavam acima dos demais, desprezando o trabalho e a teologia de outros apóstolos ou pregadores. Havia diferentes "disposições mentais" e "pareceres". As disputas iam muito além de simples debates: havia ciúmes e brigas, um verdadeiro sentimento de inimizade, causado pela carnalidade de alguns coríntios:
Porquanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais e andais segundo o homem? Quando, pois, alguém diz: Eu sou de Paulo, e outro: Eu, de Apolo, não é evidente que andais segundo os homens? (1 Coríntios 3:3-4)
A postura desses coríntios era bem semelhante à das seitas: apenas o "meu grupo" é correto, e os demais estão errados. Mesmo quando alguns diziam ser "de Cristo", a atitude era criticada por Paulo. Nesse último caso, apenas os ensinos vindos de Jesus nos Evangelhos eram seguidos, havendo uma desconsideração com o ensino que o próprio Cristo dava por meio dos apóstolos. Era apenas mais um grupo no meio dos outros.
Quando ser calvinista (ou reformado) significa dividir o Corpo de Cristo, não reconhecer o valor de outros irmãos e se isolar em uma atitude de superioridade, o rótulo é sim prejudicial. Isso acontece com calvinistas que começam a questionar a salvação de quem diverge em pontos secundários da fé (como, por exemplo, arminianos ou pentecostais) ou que chegam ao ponto de recusar qualquer tipo de diálogo ou ação conjunta. Na hora em que os apelos à teólogos reformados se tornam tão ou mais importantes do que os versículos bíblicos, no instante em que argumentos de quem não é calvinista são recusados por motivos ad hominem, ou quando há um interesse maior em conhecer os pensamentos de Calvino e seus seguidores do que em Cristo Jesus e Seus apóstolos, com certeza estamos diante de comportamentos pecaminosos.

Claro que esse tipo de atitude não é uma exclusividade do calvinismo. Infelizmente atitudes semelhantes podem ser encontradas em outros ramos do protestantismo e do cristianismo também. Embora seja óbvio que há teólogos que entenderam melhor a Bíblia do que outros, devemos ser capazes de compreender e apreciar a contribuição de santos que não pensam como nós. Afinal, o cristianismo é maior que o calvinismo e não pode ser resumido nos pensamentos de um único teólogo, ainda que ele seja o apóstolo Paulo:
Quem é Apolo? E quem é Paulo? Servos por meio de quem crestes, e isto conforme o Senhor concedeu a cada um. Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus. De modo que nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. Ora, o que planta e o que rega são um; e cada um receberá o seu galardão, segundo o seu próprio trabalho. (1 Coríntios 3:5-8)
Quando não é pecado
Entretanto, ao contrário do que imaginamos, os rótulos são sim usados na Bíblia, inclusive por Jesus Cristo. Nem Ele e nem os apóstolos viam qualquer problema em usar nomes para identificar grupos que professavam determinado tipo de pensamento. Em resumo, não há qualquer pecado em rotular com um nome um grupo de pessoas que pensam ou agem de determinada maneira.
Um bom exemplo é ver a forma como os primeiros cristãos reagiram quando eram rotulados pelos demais. Em momento algum do livro de Atos vemos qualquer rejeição da Igreja aos rótulos:
tendo-o encontrado, levou-o para Antioquia. E, por todo um ano, se reuniram naquela igreja e ensinaram numerosa multidão. Em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos. (Atos 11:26)
Paulo chega a se valer de um deles em sua defesa perante Félix:
Porém confesso-te que, segundo o Caminho, a que chamam seita, assim eu sirvo ao Deus de nossos pais, acreditando em todas as coisas que estejam de acordo com a lei e nos escritos dos profetas,...(Atos 24:14)
Os rótulos aparecem até para identificar segmentos distintos do povo de Deus:
Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos, houve murmuração dos helenistas (judeus de fala grega) contra os hebreus(judeus de fala hebraica), porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária. (Atos 6:1)
E, claro, eles foram usados tanto por Jesus como pelos apóstolos para condenar grupos heréticos (notem que eles generalizavam sem constrangimentos):
E Jesus lhes disse: Vede e acautelai-vos do fermento dos fariseus e dossaduceus. (Mateus 16:6)
Posto que miríades de pessoas se aglomeraram, a ponto de uns aos outros se atropelarem, passou Jesus a dizer, antes de tudo, aos seus discípulos: Acautelai-vos do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia. (Lucas 12:1)
Porque existem muitos insubordinados, palradores frívolos e enganadores, especialmente os da circuncisão. (Tito 1:10)
Com efeito, antes de chegarem alguns da parte de Tiago, comia com os gentios; quando, porém, chegaram, afastou-se e, por fim, veio a apartar -se, temendo os da circuncisão. (Gálatas 2:12)
Não devemos querer ser mais realistas que o Rei dos Reis. Se Jesus e Paulo usaram rótulos, inclusive para criticar, quem somos nós para dizer que eles são pecaminosos? Os pós-modernos querem ser mais santos que o Santíssimo. E, claro, incorrem em erro.
O equilíbrio da interpretação
E aqui nós podemos ver a importância de se analisar toda a evidência bíblica antes de emitirmos certos julgamentos. Isoladas, as críticas de Paulo aos grupos de Corinto parecem uma condenação clara a quem se identifica como calvinista, arminiano ou luterano, mas que também serviria a quem se define como católico, batista ou pentecostal. Quando o contexto é analisado com mais calma e consideramos atitudes de Paulo e de Jesus, vemos que o pecado surge quando a rotulação é fruto da natureza pecaminosa humana e de um espírito faccioso (que provoca facções, divisões), comprometendo a unidade da Igreja.

Por esta razão, não me constranjo em fazer parte de um blog que se autointitula 5 Calvinistas. Também não sou como outros que receam chamar suas posiçõs teológicas pelo nome. Não tenho vergonha em dizer que sou cristão, reformado, presbiteriano, pedobatista, carismático e amilenista. E não entendo os pudores de quem tem cheiro de lobo, cara de lobo, pêlo de lobo, latido de lobo e nega ser lobo. Aliás, só consigo entender isso como má-fé ou como uma rendição ao pós-modernismo, que alguma vezes influencia os cristãos mais do que o próprio Jesus.
Claro que há excessos, e ainda hoje há calvinistas, arminianos, pentecostais e outros que caem no mesmo erro dos coríntios. Mas um erro se corrige com um acerto, e não com outro erro, ainda que seja o do politicamente correto.
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

sexta-feira, 10 de junho de 2011

JOÃO CALVINO: OS ANOS FINAIS

 

Alderi Souza de Matos

      Desde que retornou a Genebra em 1541, Calvino se dedicou a uma intensa atividade em várias frentes, pastoreando, escrevendo e cuidando dos interesses da causa reformada. Esse trabalho se desenvolveu em meio a muitas dificuldades e obstáculos, principalmente os constantes conflitos com as autoridades civis. Algumas das famílias mais ricas e influentes da cidade (os chamados “libertinos”) opunham-se ao seu programa de reformas e elevação dos padrões morais da comunidade.

      Essa situação mudou em 1555. Os conselhos municipais passaram a ser constituídos de homens simpáticos a Calvino e os últimos anos da vida do reformador foram mais gratificantes. O ano de 1559 foi especialmente importante, com a ocorrência de três eventos significativos: Calvino finalmente tornou-se cidadão de Genebra (até então era apenas um imigrante), publicou a edição definitiva das Institutas e inaugurou a sua sonhada Academia, voltada para a preparação de pastores, embrião da atual Universidade de Genebra.

      Na vida pessoal, o reformador enfrentou diversas provações ao longo desses anos. Em 1549 perdeu Idelette, a esposa dedicada e leal que o havia acompanhado por dez anos. Durante toda a estadia em Genebra, Calvino também lutou com constantes problemas de saúde dos mais diversos tipos. Uma coisa que impressiona os estudiosos é que um homem de saúde tão precária, assoberbado com tantas responsabilidades e desafios, tenha encontrado tempo e disposição para escrever uma quantidade tão impressionante de obras, todas marcadas por grande erudição e profundidade.

      Um episódio lastimável da vida do reformador genebrino foi o seu envolvimento na execução de Miguel Serveto, em 1553. Serveto era um médico espanhol que havia escrito várias obras contra a doutrina da trindade. Condenado à morte pela Inquisição em Lyons, na França, conseguiu fugir e foi parar em Genebra, onde foi preso, julgado e condenado à morte na fogueira pelas autoridades civis, sob a acusação de heresia. Calvino atuou como a principal testemunha de acusação. Esse evento lançou uma triste mancha sobre a sua reputação, mais tarde reconhecida e lamentada pelos seus seguidores. Infelizmente, esse fato tem levado muitos críticos a ignorarem as importantes contribuições positivas do reformador.

      João Calvino faleceu com quase 55 anos no dia 27 de maio de 1564. Segundo suas instruções prévias, foi sepultado em um local não identificado. Seu lema de vida, que aparece em muitas de suas obras, mostra uma mão que segura um coração, tendo em volta as seguintes palavras: “Cor meum tibi offero, Domine, prompte et sincere” (O meu coração te ofereço, ó Senhor, de modo pronto e sincero). Um dos maiores legados desse líder é representado pelas suas obras, que serão brevemente descritas no próximo artigo.

JOÃO CALVINO – CRONOLOGIA

 

Alderi Souza de Matos

      · 1509: João Calvino nasceu em Noyon, nordeste da França, no dia 10 de julho. Seu pai, Gérard Cauvin, era advogado dos religiosos e secretário do bispo local. Sua mãe, Jeanne Lefranc, faleceu quando ele tinha cinco ou seis anos de idade. Por alguns anos, o menino conviveu e estudou com os filhos das famílias aristocráticas locais. Aos 12 anos, recebeu um benefício eclesiástico, cuja renda serviu-lhe como bolsa de estudos.

      · 1523: Calvino foi residir em Paris, onde estudou latim e humanidades no Collège de la Marche e teologia no Collège de Montaigu. Em 1528, iniciou seus estudos jurídicos, primeiro em Orléans e depois em Bourges, onde também estudou grego com o erudito luterano Melchior Wolmar. Com a morte do pai em 1531, retornou a Paris e dedicou-se ao seu interesse predileto – a literatura clássica. No ano seguinte, publicou um comentário sobre o tratado de Lúcio Enéias Sêneca De Clementia.

      · 1533: converteu-se à fé evangélica, provavelmente sob a influência do seu primo Robert Olivétan. No final desse ano, teve de fugir de Paris sob acusação de ser o co-autor de um discurso simpático aos protestantes, proferido por Nicholas Cop, o novo reitor da universidade. Refugiou-se na casa de um amigo em Angoulême, onde começou a escrever a sua principal obra teológica. Em 1534, voltou a Noyon e renunciou ao benefício eclesiástico. Escreveu o prefácio do Novo Testamento traduzido para o francês por Olivétan (1535).

      · 1536: no mês de março foi publicada em Basiléia a primeira edição da Instituição da Religião Cristã (ou Institutas), introduzida por uma carta ao rei Francisco I da França contendo um apelo em favor dos evangélicos perseguidos. Alguns meses mais tarde, Calvino dirigia-se para Estrasburgo quando teve de fazer um desvio em virtude de manobras militares. Ao pernoitar em Genebra, o reformador suíço Guilherme Farel o convenceu a ajudá-lo naquela cidade, que apenas dois meses antes abraçara a Reforma Protestante (21-05). Logo, os dois líderes entraram em conflito com as autoridades civis de Genebra acerca de questões eclesiásticas (disciplina, adesão à confissão de fé e práticas litúrgicas), sendo expulsos da cidade.

      · 1538: Calvino foi para Estrasburgo, onde residia o reformador Martin Bucer, e ali passou os três aos mais felizes da sua vida (1538-41). Pastoreou uma pequena igreja de refugiados franceses; lecionou em uma escola que serviria de modelo para a futura Academia de Genebra; participou de conferências que visavam aproximar protestantes e católicos. Escreveu amplamente: uma edição inteiramente revista das Institutas (1539), sua primeira tradução francesa (1541), um comentário da Epístola aos Romanos, a Resposta a Sadoleto (uma apologia da fé reformada) e outras obras. Em 1540, Calvino casou-se com uma de sua paroquianas, a viúva Idelette de Bure. Seu colega Farel oficiou a cerimônia.

      · 1541: por volta da ocasião em que Calvino escreveu a sua Resposta a Sadoleto, o governo municipal de Genebra passou a ser controlado por amigos seus, que o convidaram a voltar. Após alguns meses de relutância, Calvino retornou à cidade no dia 13 de setembro de 1541 e foi nomeado pastor da antiga catedral de Saint Pierre. Logo em seguida, escreveu uma constituição para a igreja reformada de Genebra (as célebres Ordenanças Eclesiásticas), uma nova liturgia e um novo catecismo, que foram logo aprovados pelas autoridades civis. Nas Ordenanças, Calvino prescreveu quatro ofícios para a igreja: pastores, mestres, presbíteros e diáconos. Os dois primeiros constituíam a Venerável Companhia e os pastores e presbíteros formavam o controvertido Consistório.

      · Por causa de seu esforço em fazer da dissoluta Genebra uma cidade cristã, durante catorze anos (1541-55) Calvino travou grandes lutas com as autoridades e algumas famílias influentes (os “libertinos”). Nesse período, ele também enfrentou alguns adversários teológicos, o mais famoso de todos sendo o médico espanhol Miguel Serveto, que negava a doutrina da Trindade. Depois da fugir da Inquisição, Serveto foi parar em Genebra, onde acabou julgado e executado na fogueira em 1553. A participação de Calvino nesse episódio, ainda que compreensível à luz das circunstâncias da época, é triste mancha na biografia do grande reformador, mais tarde lamentada por seus seguidores.

      · 1548: nesse ano ocorreu o falecimento de Idelette e Calvino nunca mais tornou a casar-se. O único filho que tiveram morreu ainda na infância. Não obstante, Calvino não ficou inteiramente só. Tinha muitos amigos, inclusive em outras regiões de Europa, com os quais trocava volumosa correspondência. Graças à sua liderança, Genebra tornou-se famosa e atraiu refugiados religiosos de todo o continente. Ao regressarem a seus países de origem, essas pessoas ampliaram ainda mais a influência de Calvino.

      · 1555: os partidários de Calvino finalmente derrotaram os “libertinos.” Os conselhos municipais passaram a ser constituídos de homens que o apoiavam. Embora não tenha ocupado nenhum cargo governamental, Calvino exerceu enorme influência sobre a comunidade, não somente no aspecto moral e eclesiástico, mas em outras áreas. Ele ajudou a tornar mais humanas as leis da cidade, contribuiu para a criação de um sistema educacional acessível a todos e incentivou a formação de importantes entidades assistenciais como um hospital para carentes e um fundo de assistência aos estrangeiros pobres.

      · 1559: nesse ano marcante, ocorreram vários eventos significativos. Calvino finalmente tornou-se um cidadão da sua cidade adotiva. Foi inaugurada a Academia de Genebra, embrião da futura universidade, destinada primordialmente à preparação de pastores reformados. No mesmo ano, Calvino publicou a última edição das Institutas. Ao longo desses anos, embora estivesse constantemente enfermo, desenvolveu intensa atividade como pastor, pregador, administrador, professor e escritor.

      · 1564: João Calvino faleceu com quase 55 anos em 27 de maio de 1564. A seu pedido, foi sepultado discretamente em um local desconhecido, pois não queria que nada, inclusive possíveis homenagens póstumas à sua pessoa, obscurecesse a glória de Deus. Um dos emblemas que aparecem nas obras do reformador mostra uma mão segurando um coração e as palavras latinas “Cor meum tibi offero Domine, prompte et sincere” (O meu coração te ofereço, ó Senhor, de modo pronto e sincero).

segunda-feira, 6 de junho de 2011

CALVINO, O DIACONATO E A RESPONSABILIDADE SOCIAL

 

Alderi Souza de Matos

                O reformador João Calvino (1509-1564) foi, reconhecidamente, o mais articulado e produtivo dentre os teólogos protestantes do século 16. Sua mente inquiridora interessou-se pelos mais diferentes temas relacionados com a fé cristã, a igreja e a sociedade. Um dos muitos tópicos que despertaram o seu interesse foi a questão social e suas implicações, sobre as quais escreveu amplamente. As suas idéias acerca desse assunto podem ser encontradas na sua obra magna, a Instituição da Religião Cristã ou Institutas, bem como em seus comentários bíblicos, sermões, cartas e outros escritos.

1. Duas influências

                Calvino foi despertado para a problemática social por duas realidades de grande impacto. De um lado, ele defrontou-se continuamente com as dificuldades sócio-econômicas enfrentadas por muitas pessoas e grupos na Europa do seu tempo. Além dos antigos problemas das guerras, fomes prolongadas e epidemias, havia os males estruturais de uma sociedade feudal em transição para o capitalismo, que gerava todo um conjunto de desigualdades e injustiças sociais. Mais especificamente, o reformador se deparava com a situação da cidade de Genebra, na Suíça, onde passou boa parte da sua vida (cerca de vinte e cinco anos). Além da população carente local, a cidade recebia continuamente o influxo de centenas de refugiados que para lá se dirigiam fugindo da intolerância religiosa em outras partes do continente.

                Outro elemento gerador da reflexão social de Calvino, esse certamente muito mais importante, foi o ensinamento das Escrituras sobre esse assunto. Os estudiosos apontam para o fato de que Calvino foi eminentemente um teólogo bíblico. Ele preocupou-se em expor o que as Escrituras ensinam sobre os temas mais relevantes para a vida humana. E um desses temas, presente nas mais diferentes partes tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, é a questão social. Daí ter o reformador escrito tão amplamente sobre pobreza e riqueza, o uso do dinheiro e as responsabilidades dadas por Deus aos seus filhos com respeito aos sofredores.

                Uma coisa que não se deve fazer é separar o pensamento social de Calvino da sua teologia. Dentre os princípios da teologia reformada calvinista está o entendimento de que Deus é soberano sobre todas as coisas, de que Cristo é o senhor de todos os aspectos da vida. Daí o caráter tão abrangente da fé reformada, que extrapola o campo especificamente religioso e eclesiástico para incluir todos os aspectos da sociedade e da cultura, inclusive as questões políticas, econômicas e sociais. Outro princípio central é que a Palavra de Deus deve governar todas as áreas da vida, pelo menos para os cristãos.

                Examinando as Escrituras, Calvino discerniu na realidade do pecado humano a causa principal dos males sociais. Na forma de ignorância, insensibilidade, egoísmo e avareza, o pecado aliena o ser humano do seu Criador e do seu semelhante, gerando, agravando ou perpetuando os problemas sociais. Cristo, com seus ensinos, seu exemplo e sua obra redentora, veio restaurar os relacionamentos humanos aviltados pelo pecado. Por isso, a restauração da sociedade deve começar na igreja, a sociedade redimida.

2. Um tríplice ministério

                Calvino entendia que a igreja deve exercer, nesse sentido, um tríplice ministério – didático, político e social. O primeiro aspecto aponta para a necessidade de continua instrução pública e particular a respeito da temática social. O reformador fez isso através do púlpito e dos seus escritos, particularmente os seus comentários bíblicos, ao abordar tópicos como a providência de Deus, trabalho e descanso, a mordomia dos bens e os deveres dos cristãos para com o próximo. Calvino partia da premissa bíblica de que todas as dádivas da criação pertencem a Deus e se destinam ao usufruto dos seres humanos. Portanto, a comunidade deve distribuir os recursos dados por Deus com vistas ao bem comum, pois é inescusável que alguns indivíduos tenham abundância e outros passem necessidade. A ética social calvinista fundamenta-se na solidariedade e generosidade que repudia a ganância e a insensibilidade. Todavia, a beneficência cristã não deve praticada por mera obrigação ou legalismo, e sim como um ato de compaixão, espontaneidade e liberalidade.

                São particularmente interessantes as opiniões de Calvino acerca de ricos e pobres. Ele argumenta que esses dois grupos são chamados à comunhão, repartindo e recebendo. Em um sermão sobre Deuteronômio 15.11-15, o reformador pondera: “Deus mistura os ricos e os pobres para que eles possam encontrar-se e ter comunhão uns com os outros, de modo que os pobres recebam e os ricos repartam”. Uma das razões por que Deus permite que exista pobreza no mundo é dar aos mais afortunados a oportunidade de praticarem o bem. Como uma lei da vida, onde existe riqueza abundante também deveria haver doações generosas dos ricos aos pobres. Um dos textos que Calvino utiliza com mais freqüência nos seus escritos é o apelo de Isaías ao homem rico de Israel – “... e não te escondas do teu semelhante” (Is 58.7) – que ele interpreta como uma referência ao pobre.

                Ao contrário do que pode parecer, o reformador não defendia o assistencialismo paternalista. Ele valorizou o trabalho como o meio usual para a obtenção do sustento próprio e familiar. Quando pregava sobre a proibição veterotestamentária de se privar um credor pobre da sua mó superior em garantia de uma dívida (Dt 24.6), Calvino dava a entender que nenhuma sociedade jamais deve privar qualquer pessoa da oportunidade de trabalhar para ganhar o seu sustento. Em contraste com alguns calvinistas posteriores, o reformador nunca viu a pobreza e o infortúnio como evidências do desfavor de Deus para com o indivíduo afligido, nem considerava a prosperidade como um sinal da bênção de Deus por causa de méritos pessoais ou como evidência da eleição para a salvação. Antes, a riqueza e a pobreza são expressões do favor ou do juízo de Deus sobre toda a comunidade, que deve redistribuir os seus recursos com vistas ao bem-comum. Outros textos aos quais Calvino apela são Deuteronômio 15.7-15; Salmo 41.1; Amós 8.4-6; 2Coríntios 8 e 1João 3.17-18.

                O segundo aspecto do ministério da igreja na área social é a atuação política. Na Genebra de Calvino, como de resto em toda a Europa do século 16, havia uma profunda ligação entre a Igreja e o Estado. Calvino entendia que essa relação devia ser de apoio mútuo, mas sem interferência. Não obstante, ele acreditava que, além de interceder pelas autoridades, a igreja tinha a missão de advertir os governantes sobre as suas responsabilidades, defender os pobres e oprimidos, e denunciar as injustiças sociais. O reformador ficava exasperado com uma série de práticas correntes em Genebra que prejudicavam os elementos mais frágeis da sociedade, tais como o monopólio, a cobrança de juros excessivos e a especulação em torno dos preços dos alimentos. Assim sendo, ele e seus colegas faziam gestões contínuas junto aos síndicos da cidade no sentido de que fossem corrigidas essas mazelas. Calvino defendeu a intervenção estatal para a proteção do bem comum, a fim de que “os homens respirem, comam, bebam e mantenham-se aquecidos” (Institutas 4.20.3). A sua influência e ensinos incentivaram o interesse já existente em Genebra por uma assistência ampla e respeitosa aos pobres.

                Além do seu ministério didático e político, a igreja tem também um ministério social de socorro direto aos necessitados. Isso ela faz através da instituição do diaconato. Quando foi residir pela segunda vez em Genebra, em 1541, Calvino redigiu uma constituição para a igreja reformada daquela cidade, intitulada Ordenanças Eclesiásticas. Nesse documento ele previu quatro classes de oficiais para a igreja: pastores, mestres, presbíteros e diáconos. Recorrendo às Escrituras, ele atribuiu aos diáconos funções exclusivamente beneficentes. Se, por um lado, todo cristão tem o dever de socorrer os carentes e sofredores, a igreja como um todo também tem uma responsabilidade nessa área, devendo exercê-la através do diaconato.

3. O diaconato reformado

                Curiosamente, Calvino encontrou na Bíblia, mais especificamente em Romanos 12.8, a justificativa para a existência de dois tipos de diáconos, aos quais ele denominou “procuradores” e “hospitaleiros”. Os primeiros seriam responsáveis pela arrecadação, administração e distribuição dos recursos destinados à beneficência. Os hospitaleiros dedicavam-se ao cuidado direto dos pobres e sofredores. É assim que Calvino aborda a questão no Livro IV das Institutas (4.3.9):

                O cuidado dos pobres foi confiado aos diáconos. Todavia, dois tipos são mencionados na Carta aos Romanos: “Aquele que contribui, faça-o com simplicidade; ...o que exerce misericórdia, com alegria” [Rm 12.8; cf. Vulgata]. Como é certo que Paulo está falando do ofício público da igreja, deve ter havido dois graus distintos. A menos que eu esteja equivocado em meu julgamento, na primeira cláusula ele designa os diáconos que distribuem as esmolas, mas a segunda refere-se àqueles que se devotavam ao cuidado dos pobres e enfermos. Eram deste tipo as viúvas que Paulo menciona a Timóteo [1Tm 5.9-10]. As mulheres não podiam exercer qualquer outro ofício público, senão o de se devotarem ao cuidado dos pobres. Se aceitarmos isso (como deve ser aceito), haverá dois tipos de diáconos: um para servir a igreja administrando as questões referentes aos pobres e outro para cuidar dos pobres diretamente. Assim, muito embora o termo diakonia tenha em si mesmo uma implicação mais ampla, a Escritura designa especificamente como diáconos aqueles a quem a igreja nomeou para distribuírem as esmolas e cuidarem dos pobres, e também para servirem como mordomos da caixa comum dos pobres.

                Os estudiosos têm procurado encontrar as raízes dessa concepção de Calvino acerca do duplo diaconato. Alguns acham que, além das Escrituras, Calvino recebeu duas outras influências. A primeira foi o ensino de outros reformadores, notadamente Martin Butzer, com o qual conviveu por três anos em Estrasburgo (1538-1541). Em segundo lugar, havia o fato concreto de que uma importante instituição social de Genebra tinha dois tipos de funcionários, que eram denominados, precisamente, hospitaleiros e procuradores dos pobres. Em suma, Calvino defendeu a necessidade de dois tipos de diáconos porque as Escrituras e a experiência indicavam que existem duas tarefas primordiais: a administração dos recursos e o cuidado pessoal dos necessitados. Outras passagens às quais o reformador recorreu em sua argumentação acerca do diaconato são Atos 6.1-6; Romanos 16.1-2; 1Timóteo 3.8-13 e 5.3-10.

4. Dois grandes exemplos

                As idéias de Calvino acerca do diaconato encontraram expressão prática em duas instituições sociais existentes em Genebra. A primeira delas era o Hospital Geral, que havia sido criado pelo governo municipal em 1535 (um ano antes da chegada de Calvino), para substituir várias instituições católicas anteriores. Estava localizado em um antigo convento no centro de Genebra e era sustentado por recursos provenientes de diversas fontes. Seus administradores ou procuradores eram considerados ao mesmo tempo funcionários da municipalidade de Genebra e diáconos da igreja reformada local. Eles reuniam-se uma vez por semana, geralmente bem cedo aos domingos, para analisar o funcionamento do Hospital e deliberar sobre a assistência a famílias carentes específicas. A administração diária do Hospital estava confiada ao hospitaleiro, que residia no próprio local e supervisionava o programa de assistência aos muitos necessitados que ali residiam, tais como órfãos, menores abandonados, deficientes físicos e anciãos. O hospitaleiro organizava equipes de cozinheiros que faziam pão e vinho para os internos. Seus outros auxiliares eram um professor para as crianças, um barbeiro-cirurgião e um farmacêutico que prestavam assistência médica e serventes encarregados de tarefas mais simples.

                O Hospital Geral era voltado para as necessidades dos moradores de Genebra, mas não havia na cidade recursos para socorrer os refugiados religiosos que para lá afluíam em número crescente, vindos especialmente da vizinha França. Os recém-chegados competiam com os residentes por espaço, alimento e trabalho. As condições sanitárias eram precárias e as doenças contagiosas, endêmicas. A fim de minorar esses problemas causados pela imigração, foi criada por volta de 1545 uma nova instituição, o Fundo para os Estrangeiros Franceses Pobres, mais conhecido como Fundo Francês. Em essência, o que o Fundo fazia era angariar dinheiro junto aos refugiados ricos e utilizá-lo para dar assistência aos refugiados carentes. Calvino, o refugiado mais ilustre de Genebra, embora vivesse modestamente, contribuía para o Fundo de maneira regular e generosa.

                Os dirigentes da instituição, geralmente imigrantes de posses, eram considerados diáconos da Igreja Reformada de Genebra. Eles aplicavam os recursos do Fundo em uma grande variedade de projetos caritativos: ajudavam os novos refugiados a obterem moradia em casas particulares ou hospedarias; forneciam camas ou colchões, pequenas doações em dinheiro ou cereais e conjuntos de ferramentas ou matrículas para os aprendizes de ofícios; contratavam amas de leite ou mães adotivas para os bebês órfãos; compravam tecidos e contratavam alfaiates e costureiras para fazerem roupas para os pobres. Também ofereciam serviços médicos através de profissionais especializados. Além disso, os diáconos aplicavam os recursos do Fundo em projetos missionários, especialmente na França.

5. Considerações finais

                As instituições sociais existentes em Genebra em meados do século 16 mostram a coerência que havia entre o pensamento social de Calvino e as práticas da igreja que pastoreava. À luz das Escrituras, o reformador entendia que a igreja tem uma solene responsabilidade para com os carentes e marginalizados. Essa obrigação resulta da compreensão de uma série de verdades: o caráter de Deus como um ser misericordioso, que atenta para os sofredores; a obra redentora de Cristo, que liberta o ser humano do egoísmo e da insensibilidade e o impulsiona a amar o seu semelhante; os bens materiais como instrumento não apenas de satisfação própria, mas de serviço a Deus e aos outros. Não só as Escrituras ordenam de maneira insistente e explícita que os filhos de Deus pratiquem individualmente a misericórdia e a solidariedade, mas prescrevem que a igreja também o faça coletivamente, através de oficiais especialmente designados, os diáconos.

                Calvino argumentava que, assim como os pastores são os ministros do culto, os líderes dos “serviços de piedade” que expressam obediência ao primeiro mandamento (amor a Deus), os diáconos são os ministros da benevolência, os líderes dos “serviços de caridade” que cumprem o segundo grande mandamento, a segunda tábua da lei (amor ao próximo). Se deve haver dois tipos de diáconos (como no Hospital Geral) ou um só tipo (como no Fundo Francês) é secundário; o importante é que a igreja tenha esses oficiais e que eles sejam reconhecidos e apoiados na nobre missão que lhes é confiada pelo próprio Deus, através da sua Palavra.

                Em conclusão, é inspirador vermos o lugar de destaque dado por João Calvino às preocupações sociais tanta na sua teologia em geral como nas suas práticas ministeriais na cidade de Genebra. Essencialmente, o ilustre reformador cria que o cristão é um mordomo das dádivas de Deus e que a boa mordomia leva o crente a ter um espírito generoso e aberto para com os menos afortunados. Esse é um valioso legado que precisa ser resgatado pelos herdeiros da Reforma, numa época em que muitas igrejas têm se esquecido das suas responsabilidades nessa área. Só assim poderemos ser seguidores fiéis e coerentes daquele que “andou por toda parte, fazendo o bem” (Atos 10.38).

Perguntas para discussão

1.     Quais os dois conjuntos de considerações que levaram Calvino a preocupar-se com a responsabilidade social da igreja?

2.     Segundo o reformador, que tríplice ministério a igreja deve exercer em relação aos problemas sociais?

3.     Por que não é suficiente que os cristãos pratiquem a benevolência individualmente?

4.     Em que aspectos o diaconato dos dias de Calvino era diferente do atual em nossas igrejas?

5.     Quais são alguns dos principais fundamentos bíblicos e teológicos para a existência do ofício diaconal?

6.     A existência de estruturas e programas sociais governamentais não torna desnecessária em nossos dias a atuação dos diáconos?

7.     O que a sua igreja local pode fazer de concreto para desincumbir-se do mandado bíblico na área social?

segunda-feira, 28 de março de 2011

As diferenças entre o Novo Calvinismo e o Calvinismo Tradicional

 

Por Leandro Antonio de Lima
Após a reportagem de Time Magazine listando o novo calvinismo como uma das dez ideias que estão mudando o mundo, um dos autores citados, o pastor Mark Driscoll, colocou em seu site algumas comparações entre o novo calvinismo e o velho calvinismo. Esse é o momento de avaliarmos essas comparações. Abaixo reproduzimos o que Driscoll propôs, e como pode ser visto em seu site. (Driscoll, 2009a).
1) O velho calvinismo foi fundamentalista ou liberal, separatista ou sincretizado com a cultura. O novo calvinismo é missional e busca criar uma cultura redimida.
2) O velho calvinismo fugiu das cidades, o novo calvinismo está inundando as cidades.
3) O velho calvinismo foi cessacionista e temeroso da presença e poder do Espírito Santo, o novo calvinismo é continuacionista e alegre pela presença e poder do Espírito.
4) O velho calvinismo foi temeroso e suspeitoso a respeito de outros cristãos e quebrava pontes, já o novo calvinismo ama a todos os cristãos e constrói pontes entre eles.
Em minha avaliação, as declarações de Driscoll foram um tanto quanto precipitadas. É claro que Driscoll está mirando um estilo particular de calvinismo que perdurou nos Estados Unidos por algum tempo (e creio que também no Brasil), mas ele generalizou demais a avaliação e, certamente falhou em sua análise do movimento calvinista como um todo.
Por outro lado, eu posso concordar com aquilo que Driscoll busca como meta do novo calvinismo, entretanto, acredito que em seus “melhores momentos” o calvinismo foi exatamente isso.
O calvinismo é uma teologia completa por causa de sua cosmovisão. Desde o início, o calvinismo foi visto como um movimento de alcance global e para influenciar todas as esferas da vida. A combinação de piedade, erudição e engajamento político e social foram marcas preponderantes do movimento. O calvinismo despontou e se desenvolveu com o potencial de ser um sistema completo. A partir da análise do conceito de cultura e da ação calvinista em relação à cultura é preciso afirmar que o novo calvinismo provavelmente ainda não alcançou o grau de maturidade cultural que o calvinismo teve em seus melhores momentos. O novo calvinismo ainda é mais uma retomada das doutrinas calvinistas antigas com uma apresentação mais atualizada e um foco em espiritualidade e decisão de vida, do que uma continuação do calvinismo em seu sentido mais amplo, como apresentado no Kuyperianismo, por exemplo. Por isso, a declaração de Driscoll pode estar invertida. É o novo calvinismo que ainda não consegue se relacionar verdadeiramente com a cultura, ao contrário do que fazia o calvinismo tradicional, buscando a potencialização da cultura ou mesmo sua transformação para a glória de Deus. Mas é evidente que o novo calvinismo tem tudo para estabelecer um verdadeiro relacionamento transformador da cultura.
Do mesmo modo, não há qualquer evidência histórica de que o calvinismo tenha “fugido” das cidades ou não tenha se preocupado com missões. O calvinismo, desde o início, demonstrou forte preocupação missionária. Driscoll provalvelmente disse isso porque por bastante tempo, os lugares nos Estados Unidos aonde o calvinismo se manteve e se perpetuou foi o interior, em pequenas cidades como Grand Rapids – MI, por exemplo. Mas isso não significa que tenha sido uma opção do calvinismo americano se manter confinado ao interior, antes, provavelmente isso tenha acontecido justamente por causa da dificuldade que foi no auge do liberalismo e do evangelicalismo arminiano, o calvinismo conseguir adeptos nas grandes cidades.
Com relação à disputa sobre a contemporaneidade ou cessacionismo dos dons espirituais, é preciso lembrar que a preocupação de Driscoll é a de correlacionar o calvinismo com os acontecimentos do século 20, ou seja, com o surgimento do movimento pentecostal. Não faz parte do escopo desse post uma análise do movimento pentecostal, é suficiente para nós o entendimento de que entre os evangélicos há uma divisão bastante clara no que diz respeito a atuação do Espírito concedendo dons. Alguns interpretam que os dons do Espírito concedidos a partir do Pentecostes cessaram com a morte dos Apóstolos. Outros entendem que esses dons ainda estão em atividade. Driscoll está dizendo que o velho calvinismo foi cessacionista, enquanto que o novo calvinismo é continuacionista. Essa afirmação, novamente, não muito é exata.
É um fato que muitos autores calvinistas são enfaticamente cessacionistas, como o dispensacionalista John MacArthur Jr, as vezes chamado de “novo calvinista”. Por outro lado, há calvinistas históricos que não insistem no cessacionismo, como Stott, Packer e o famoso Lloyd-Jones. Deve ser lembrado que a questão chave para a maioria dos calvinistas históricos não é se os dons espirituais ainda estão em atividade, mas se o Batismo com o Espírito Santo é uma “segunda bênção” como quer o Pentecostalismo. Assim, insistindo que o Batismo com o Espírito Santo acontece no momento da conversão, boa parte dos calvinistas não sente necessidade de enfatizar um cessar absoluto dos dons espirituais. A posição calvinista mais comum é que parte dos dons cessou, enquanto outros continuam em atividade. O próprio Calvino posiciona-se firmemente a favor da continuidade dos dons espirituais, entretanto, não de todos. Sobre o dom de profecia, por exemplo, Calvino entendia que ele não está mais em atividade no sentido de “predizer o futuro”, mas continua em atividade no sentido de explicar a Palavra de Deus. Calvino diz: “Na igreja Cristã, nos tempos atuais, profecia é simplesmente o correto entendimento da Escritura e o dom particular de explicá-la, visto que todas as antigas profecias e todos os oráculos divinos já foram concluídos em Cristo e seu Evangelho”. (1997, Rm 12.6, p. 431). Entretanto, Calvino fala de outros dons como sendo “dons ordinários que permanecem perpetuamente na igreja”. (1997, Rm 12.6, p. 424). Do mesmo modo, Calvino entendia que alguns ofícios exercidos na igreja primitiva tinham sido temporários, enquanto outros permaneciam. Ele escreveu:
Deve-se observar também que, dos ofícios que Paulo enumera, somente os dois últimos são de caráter perpétuo. Porquanto Deus adornou sua igreja com apóstolos, evangelistas e profetas só por algum tempo, exceto que, onde a religião se encontra sucumbida, ele suscita evangelistas à parte da ordem da igreja [extra ordinem] para restaurar a pureza da doutrina àquela posição que perdera. Sem pastores e doutores, porém, não pode haver nenhum governo da igreja. (1998, Ef 4.11, p. 123).
Portanto, a acusação de que o velho calvinismo foi temeroso do poder do Espírito Santo é uma asseveração generalizada demais. Certamente houve calvinistas que, por medo de uma identificação com o movimento Pentecostal, refrearam as supostas manifestações espirituais, e outros que em busca de uma identificação com a ciência fizeram uso de um racionalismo agudo, mas generalizar isso não faz justiça a tantos calvinistas do passado que enfatizaram o papel e o poder do Espírito na conversão, na santificação, na compreensão das Escrituras, como os puritanos, e o próprio Calvino. A luta dos calvinistas, entretanto, foi a de manter distância do movimento Pentecostal e Neo-Pentecostal com suas ênfases consideradas anti-bíblicas pelos calvinistas. Não se trata de negar o poder ou a atuação do Espírito e nem mesmo a continuidade dos dons, mas de rejeitar aquelas ênfases exageradas que não fazem parte do Cristianismo histórico, como por exemplo, a questão das novas revelações espirituais propostas pelos carismáticos. Nesse ponto, o calvinismo seguindo Calvino tende a ensinar que “novas revelações” são invenções que provêm de espíritos mentirosos e não do Espírito Santo. (1999, I, 9, 2). Nesse ponto, se Driscoll prefere uma aproximação com esses movimentos pode parecer ser o caso de seu discurso, ele está se afastando decisivamente do calvinismo. Por outro lado, se Driscoll pretende um estudo sério da pessoa do Espírito Santo, seguido de uma prática que enfatiza sua obra de acordo com a Escritura, sem racionalismo, ele não precisaria de um “novo” calvinismo diferente, pois bastaria se manter nas pegadas de Calvino.
Com relação à perspectiva ecumênica, novamente precisamos lembrar que Calvino tinha uma grande preocupação com a unidade da igreja. Novamente é forçoso concluir que a asseveração de Driscoll de que o velho calvinismo foi temeroso e suspeitoso a respeito de outros cristãos e quebrava pontes está muito longe das opiniões e ensinos de Calvino. Entretanto, muitos calvinistas de fato parecem ignorar as opiniões do Reformador de Genebra. Novamente é preciso dizer que a abertura proposta pelo novo calvinismo para outras igrejas e correntes teológicas é bem-vinda, mas para fazer isso não é preciso um rompimento com o calvinismo tradicional, antes, uma leitura atualizada dos próprios ensinos de Calvino.
Pela força dos argumentos é preciso concluir que Driscoll não foi muito exato em suas comparações entre o novo calvinismo e o velho calvinismo. Praticamente todas as coisas que ele pretende atribuir de positivo ao novo calvinismo foram mais facilmente identificadas no próprio calvinismo em seus melhores momentos e, especialmente, na teologia de seu fundador, o Reformador João Calvino. Portanto, o novo calvinismo pode buscar essas coisas desejáveis na própria essência do calvinismo histórico, desenvolvê-las e aplicá-las para os dias atuais.
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Fonte: Novo Calvinismo,via: Rev. Jucelino Souza
Extraído do blog: http://blogdoseleitos.blogspot.com/2011/03/as-diferencas-entre-o-novo-calvinismo-e.html#ixzz1HwfDvknF
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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A RELEVÂNCIA DA TEOLOGIA DE CALVINO PARA O SÉCULO 21

Lyle D. Bierma*
Introdução
No seminário norte-americano em que eu e o professor Carl Bosma ensinamos – Calvin Theological Seminary – eu leciono uma matéria intitulada “Teologia Cristã Global”. Nessa matéria nós lemos livros e ensaios escritos por teólogos de fora da Europa e da América do Norte – teólogos da África, Ásia e América Latina. Muitos desses escritos são bastante críticos da teologia do Ocidente (Europa e América do Norte). Por exemplo, alguns teólogos evangélicos latino-americanos que nós temos lido afirmam que os missionários protestantes trouxeram para a América Latina uma teologia avivalista e negadora do mundo vinda diretamente do evangelicalismo americano. A preocupação básica dessa teologia era a alma, não o corpo; a salvação individual, não mudanças sociais; a vida futura, não a vida aqui na terra. O evangelho que esses missionários trouxeram estava voltado somente para as necessidades “espirituais” dos seres humanos. Abordar coisas que estivessem fora dessa esfera espiritual seria recair no liberalismo teológico e em um tipo de evangelho social. Segundo esses críticos, a teologia ocidental nunca se contextualizou adequadamente na América Latina. Em conseqüência disso, não emergiu nenhuma teologia autóctone na América Latina até o surgimento da teologia da libertação nos anos 60 e 70. O protestantismo ocidental, e a teologia que fazia parte do mesmo, era simplesmente mais uma religião imposta a esta parte do mundo. Ele não abordou nem refletiu com seriedade o contexto latino-americano para o qual havia vindo.
Esses teólogos não-ocidentais fazem ainda outras críticas à teologia ocidental: ela tem uma orientação excessivamente abstrata e filosófica, está organizada de maneira excessivamente sistemática, é excessivamente racional e lógica, está ligada muito de perto às ideologias políticas e às estratégias econômicas do Ocidente, e é por demais alienada da realidade, ou seja, aparentemente está inconsciente da maneira pela qual a vida é experimentada pela maior parte da população mundial. Quase que se pode imaginar esses críticos dizendo o seguinte sobre o nosso tema: “Como é que a teologia de João Calvino, um europeu ocidental que viveu há quase quinhentos anos, pode ter qualquer relevância para o século 21 – especialmente para a igreja fora do Ocidente?”
Eu não estou aqui para defender a teologia ocidental dessas acusações. Na realidade, entendo que existe alguma verdade nessas críticas, muito embora elas sejam um tanto simplistas. O que pretendo fazer nesta oportunidade é avaliar essas alegações no caso de um teólogo ocidental, a saber, João Calvino. Por verdadeiro que seja que a teologia ocidental tem pouca relevância hoje – especialmente para os cristãos do chamado “Mundo Majoritário” ou Hemisfério Sul – creio que isso não é verdade no que diz respeito à teologia de Calvino. Existe relevância, até mesmo uma relevância transcultural, em grande parte da teologia de Calvino – não somente com respeito ao seu conteúdo, mas também e especialmente com respeito a toda a sua maneira de abordar a teologia, isto é, como ele encarava a natureza e o objetivo da reflexão teológica.
Nesta oportunidade vou me limitar a considerar a relevância contemporânea de apenas dois aspectos da teologia de Calvino: (1) a maneira como ele relacionou a teologia com a piedade e (2) a maneira como ele relacionou a teologia com a sociedade. Piedade e sociedade. Porém, para aqueles que não estão muito familiarizados com o homem Calvino, eu gostaria inicialmente de apresentar uma breve síntese da sua vida.
1. A Vida de Calvino
João Calvino nasceu em 1509 no norte da França. Quando era um menino de 14 anos, ele mudou-se para Paris a fim de estudar latim e artes, obtendo os graus de bacharel e de mestre com cerca de 17 anos. Nesses anos em Paris, ele sofreu a influência do movimento reformista do final da Idade Média conhecido como humanismo cristão, um programa de reforma educacional, cultural e eclesiástica baseado no estudo de textos clássicos e cristãos antigos. Inicialmente o pai de Calvino havia pretendido que o filho realizasse estudos avançados de teologia e se tornasse um homem da igreja; todavia, devido a seus problemas recentes com a Igreja Católica, ele acabou direcionando o jovem Calvino para o estudo do direito civil. Nos cinco anos seguintes Calvino estudou com vistas ao grau de direito nas universidades de Orléans e Bourges, e paralelamente começou a estudar grego. Durante esses anos na escola de direito ele também se comprometeu com a fé protestante e começou a pregar ocasionalmente.
Após a sua formatura em direito, Calvino continuou a estudar grego (e talvez hebraico) e iniciou o que parece ter sido uma carreira acadêmica como um erudito humanista protestante – ensinando e escrevendo nas áreas de direito e teologia. Todavia, sendo um protestante em um país católico, ele foi obrigado a mudar-se com freqüência e eventualmente teve de fugir da própria França. No verão de 1536, Calvino se deteve para pernoitar em Genebra, Suíça, a caminho de Estrasburgo, Alemanha. Foi convencido por Guilherme Farel, um dos líderes protestantes de Genebra, a permanecer ali e auxiliá-lo na reforma da cidade. Calvino concordou com relutância e iniciou o seu trabalho como pastor e preletor de Bíblia. Todavia, as elevadas expectativas morais de Calvino e Farel com relação aos habitantes de Genebra, que havia abraçado o protestantismo recentemente, causaram a expulsão desses homens dois anos mais tarde, e Calvino finalmente se fixou em Estrasburgo. Ali ele trabalhou como professor universitário e pastor de uma igreja de refugiados franceses, sob a orientação de Martin Bucer, o grande reformador de Estrasburgo. Durante sua estadia de três anos nessa cidade, Calvino também publicou o primeiro de seus muitos comentários da Bíblia e se casou com a viúva de um ex-anabatista.
Em 1541 Calvino foi convidado a voltar para Genebra e ali permaneceu até a sua morte 23 anos mais tarde. Ele não ficou sem inimigos, mas grande parte da oposição política às suas reformas desapareceu em meados da década de 1550, e os últimos dez anos da sua vida foram pacíficos e produtivos. Além de pregar e ensinar, Calvino continuou a oferecer conselhos políticos aos órgãos dirigentes de Genebra, embora nunca tenha ocupado nenhum cargo público e não tenha se tornado um cidadão oficial de Genebra até 1559. Ele também persuadiu as autoridades políticas a construírem uma academia teológica em Genebra, que logo se tornou o seminário reformado mais importante da Europa. Nos últimos anos de sua vida, ele concluiu a quinta e última edição das Institutas da Religião Cristã, um sumário de teologia que havia atingido 1500 páginas. A academia de Calvino, seus escritos teológicos e suas milhares de cartas a igrejas e indivíduos fora de Genebra ampliaram a sua influência em toda a Europa, e por ocasião da sua morte em 1564 ele já era conhecido como um reformador internacional. Como alguns de vocês talvez saibam, em 1556 Calvino e seus colegas até mesmo enviaram a uma pequena colônia francesa no Brasil vários jovens de Genebra, dois dos quais se tornaram os primeiros pastores protestantes a atravessarem o Oceano Atlântico. Hoje a influência de Calvino ainda é sentida ao redor do mundo nos lugares em que se difundiu o cristianismo reformado e presbiteriano.
2. Teologia e Piedade
Voltemos agora às duas maneiras sugeridas anteriormente nas quais a teologia de Calvino é relevante para a igreja mundial no século 21. Essas duas maneiras tem a ver não tanto com o conteúdo da teologia de Calvino, mas com toda a sua maneira de fazer teologia.
Em primeiro lugar, vejamos como Calvino relaciona teologia e piedade. A primeira edição das Institutas de Calvino, em 1536, tinha o seguinte título longo e interessante – “Institutas da Religião Cristã, contendo virtualmente toda a soma da piedade e tudo o que necessita ser conhecido sobre a doutrina da salvação: Uma obra que vale a pena ser lida por todos os cristãos que têm zelo pela piedade”. Para começar, trata-se de “institutas”. Institutio em latim significa algo como “instrução básica”, “compêndio” ou “manual de instruções”. Mas um manual de que – de teologia? Não, um manual “que contém virtualmente toda a soma da piedade”, um manual “que vale a pena ser lido por todos os cristãos que têm zelo pela piedade”. Não se trata de um livro primariamente sobre teologia, mas sobre piedade. Obviamente existe muita teologia no livro. Mas para Calvino a reflexão teológica nunca é um fim em si mesma. A teologia é sempre utilizada a serviço da piedade; ela deve conduzir à piedade. Assim, a teologia de Calvino algumas vezes tem sido chamada de theologia pietatis, uma “teologia da piedade”.
Mas o que Calvino quer dizer com piedade? Na mesma sentença de abertura das Institutas, nós lemos: “Quase toda a sabedoria que possuímos... consiste em duas partes: o conhecimento de Deus e de nós mesmos” (1.1.1). Na seção seguinte, Calvino passa a dizer que, quando se trata do conhecimento de Deus, “nós não diremos que... Deus seja conhecido onde não existe religião ou piedade. . . Eu denomino ‘piedade’ aquela reverência unida ao amor a Deus que o conhecimento dos seus benefícios induz” (1.2.1). Ou então: “Aqui certamente está a religião pura e verdadeira: a fé tão unida a um sincero temor a Deus que esse temor também inclui uma reverência voluntária e leva consigo o culto legítimo que está prescrito na lei” (1.2.2).  Portanto, para Calvino o verdadeiro conhecimento de Deus é um conhecimento sobre Deus que é aplicado na piedade ou devoção, isto é, em reverência, fé, amor, adoração, obediência e serviço a Deus. A teologia – o estudo de Deus, a busca de conhecimento acerca de Deus – deve evocar uma resposta de piedade em nós se queremos verdadeiramente conhecer a Deus. Pois, como diz Calvino.
Como pode o pensamento de Deus penetrar em sua mente sem que você perceba imediatamente que, visto ser obra de suas mãos, você foi... vinculado a ele por direito de criação, você deve a sua vida a ele? – que qualquer coisa que você empreende, qualquer coisa que faz, deve ser atribuída a ele? (1.2.2).
A teologia deve levar à piedade.
É exatamente assim que Calvino realiza a sua própria reflexão teológica ao longo das Institutas; as Institutas são na realidade um manual de instruções sobre a piedade. Por exemplo, ao tratar acerca de Deus, o Criador, Calvino não somente explica os detalhes da doutrina da criação, mas também exorta o leitor a “comprazer-se piedosamente nas obras de Deus” (1.14.20). O que significa confessar que Deus é o Criador dos céus e da terra? Primeiramente, diz ele, significa refletir sobre a grandeza do divino Artista mediante a contemplação de suas maravilhosas obras de arte. A criação reflete “essas imensas riquezas de sua sabedoria, justiça, bondade e poder... [e] nós devemos meditar sobre elas longamente, considerá-las em nossas mentes com seriedade e fidelidade, e evocá-las repetidamente” (1.14.21). Mas a nossa resposta deve ir além disso. Nós também devemos compreender, diz Calvino, que Deus criou todas as coisas para o bem da humanidade; devemos “sentir o seu poder e graça em nós mesmos e nos grandes benefícios que ele nos concedeu, e assim sermos levados a confiar, invocar, louvar e amá-lo” (1.14.22). Isso é piedade. Essa é uma teologia que conduz à piedade. Para Calvino, estudar a doutrina da criação não é mero exercício intelectual; envolve a pessoa inteira – coração, alma, mente e força. Como ele disse no final dessa seção acerca da criação: “Convidados pela grande doçura da beneficência e bondade [de Deus], dediquemo-nos a amá-lo e servi-lo de todo o nosso coração” (ibid.).
O mesmo se aplica à maneira como Calvino trata da predestinação, uma questão doutrinária sobre a qual ele tem sido freqüentemente mal-compreendido e violentamente atacado. O historiador americano Will Durant certa vez escreveu: “Nós sempre acharemos difícil amar o homem [Calvino] que obscureceu a alma humana com a mais absurda e blasfema concepção acerca de Deus de toda a longa e honrada história das tolices”. E o tele-evangelista americano Jimmy Swaggart certa vez afirmou: “Creio que Calvino fez com que incontáveis milhões de almas fossem para a perdição”. Todavia, a predestinação é um conceito bíblico, um conceito com o qual os teólogos ocidentais tinham se debatido por mil anos antes de Calvino. O que Calvino faz com essa doutrina é o que ele faz com toda a sua teologia – ele a relaciona com a piedade do crente. A doutrina da eleição, diz ele, em primeiro lugar acentua para nós que a salvação é sola gratia: é totalmente e inteiramente pela graça de Deus. Portanto, a doutrina da eleição deve nos humilhar, porque ela nos defronta com o fato de que não temos nenhuma contribuição a dar para a nossa salvação; ela é unicamente uma obra de Deus. Deus nos escolheu antes que nós o escolhêssemos. Em segundo lugar, essa doutrina devia levar-nos a glorificar a Deus por essa grande dádiva que ele graciosamente nos concedeu (3.21.1). Por fim, ela pode assegurar-nos do caráter definitivo da nossa salvação, pois Deus prometeu em Romanos 8 que aqueles a quem ele predestinou para a salvação nunca irão separar-se do seu amor. Como Calvino disse: “Cristo nos libertou da ansiedade nessa questão... Quando somos dele, somos salvos para sempre” (3.24.6). Calvino não pretendeu que a predestinação fosse uma doutrina aterrorizante para o crente, mas uma doutrina consoladora.
Essa teologia da piedade foi assimilada por muitas confissões reformadas na própria época de Calvino e nos anos posteriores à sua morte. A denominação à qual eu e o professor Bosma pertencemos, a Igreja Cristã Reformada da América do Norte, subscreve três dessas antigas confissões reformadas – a Confissão Belga, o Catecismo de Heidelberg e os Cânones de Dort – e em todas as três está presente essa aplicação pessoal, prática e experimental das doutrinas. Por exemplo, a Confissão Belga de 1561 explica com alguns detalhes a doutrina da providência de Deus, mas também dá atenção a qual deve ser a nossa resposta a esse ensino (Art. 13). Nós não devemos ser excessivamente curiosos quanto às obras de Deus que ultrapassam a compreensão humana. Devemos adorar as decisões de Deus com humildade e reverência. Devemos reconhecer “o conforto indizível” que essa doutrina nos dá em seu ensino de que nada nos pode acontecer por acaso. E podemos repousar no pensamento de que “Deus controla os demônios e todos os nossos inimigos, os quais não podem nos ferir sem a sua permissão e vontade”. Essas são respostas de piedade!
Uma teologia de piedade é ainda mais pronunciada no Catecismo de Heidelberg, de 1563. Como um catecismo, obviamente ele foi concebido como um guia para ensinar, pregar e aprender doutrinas. Mas ele sempre apresenta as doutrinas com um propósito em mente: aplicar essas doutrinas à vida e experiência cristãs; instilar no crente um senso de consolo ou certeza da salvação; evocar no crente uma resposta de gratidão por sua libertação do pecado e da miséria espiritual. Ouça algumas das perguntas: “Como a ressurreição de Cristo nos beneficia?” (P. 45); “Como a volta de Cristo para julgar os vivos e os mortos consola você?” (P. 52); “Que bem lhe faz, todavia, crer em tudo isto?” (P. 59); “Por que ainda precisamos praticar boas obras?” (P. 86); “Por que os cristãos precisam orar?” (P. 116). A reflexão teológica no Catecismo de Heidelberg não é um exercício abstrato. Ela é relevante para a vida e a experiência do crente.
O que Calvino e as confissões fazem aqui não é de fato uma coisa nova. Essa teologia da piedade já estava evidente na tradição humanista cristã na qual Calvino foi formado. Porém, o que é mais importante, ela tem o seu fundamento nas Escrituras, o recurso básico de Calvino na elaboração da sua teologia. Quando Calvino descreve o conhecimento de Deus como um conhecimento sobre Deus que evoca uma resposta de confiança, obediência e amor por Deus, ele está simplesmente ecoando o ensino da própria Escritura. Encontramos já no Antigo Testamento que o conhecimento de Deus não é mera posse de informações sobre Deus. É o reconhecimento dos direitos de Deus sobre nós. É o reconhecimento respeitoso e obediente do poder de Deus, da graça de Deus, das exigências de Deus. Conhecer a Deus é honrá-lo e fazer o que é justo e íntegro. Como Deus diz através do profeta Jeremias:
Não se glorie o sábio na sua sabedoria... mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor, e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor. (9.23-24)
A implicação é que o Senhor se compraz no amor e na justiça não somente quando ele os pratica, mas também quando nós os praticamos. Então poderemos afirmar que realmente compreendemos e conhecemos a Deus.
O livro de 1 João no Novo Testamento dá ênfase ao mesmo ponto: “Ora, sabemos que o temos conhecido por isto: se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade” (2.3-4). Portanto, a teologia da piedade de Calvino ressoa com a mensagem da própria Escritura. Pode-se realmente dizer que essa maneira pela qual ele procurou mostrar o valor das Escrituras na sua época não tem relevância em nossos próprios dias?
3. Teologia e Sociedade
Alguém poderá objetar que essa teologia da piedade soa excessivamente individualista, concentrando-se apenas na piedade pessoal. Ela não tem nada a dizer sobre a vida no mundo, o papel do cristão na sociedade, a dimensão comunitária da nossa existência? Certamente que sim para Calvino. A sua teologia da piedade é uma teologia que abrange toda a vida.
Ela realmente começa com a maneira pela qual Calvino e a tradição reformada entenderam o chamado “princípio escriturístico” da Reforma, sola Scriptura, isto é, que somente a Escritura é a nossa autoridade suprema em questões de doutrina e moralidade. O calvinismo, mais do que qualquer outro ramo do cristianismo da Reforma, entendia que isso significava tota Scriptura, isto é, que toda a Escritura é investida de autoridade, tanto o Antigo quanto o Novo Testamento. Os crentes do Novo Testamento desfrutam de algumas vantagens em relação aos crentes do Antigo Testamento, mas os dois testamentos estão vinculados por um único pacto da graça. Assim, o Antigo Testamento ainda é tão plenamente uma parte da revelação normativa de Deus quanto o é o Novo Testamento. Por exemplo, no Novo Testamento encontramos o chamado “mandato missionário” de Mateus 28: “Ide e fazei discípulos de todas as nações”. Mas também existe outro mandato universal na Escritura, o chamado “mandato cultural” no Antigo Testamento: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; exercei domínio sobre ela, cultivai-a e guardai-a” (Gênesis 1 e 2). Esse mandato nunca é repetido no Novo Testamento, mas não precisa ser; ele ainda é válido. A atividade cultural – agricultura, comércio, política, educação – é uma parte da vocação do cristão tanto quanto o evangelismo.
Foi a partir dessa perspectiva das Escrituras que se desenvolveu grande parte da teologia social de Calvino. Para ele, o modelo básico da sociedade se encontrava no Antigo Testamento, na comunidade de Israel. Essa piedade se estendia a todas as dimensões da vida, tanto públicas quanto particulares. Para Calvino, portanto, a reflexão teológica nunca fica limitada ao indivíduo ou apenas às questões “espirituais”. Ela é uma reflexão sobre como toda a Escritura se relaciona com toda a vida.
Para ilustrar isto, quero recorrer a três aspectos do pensamento social de Calvino: sua reflexão cristã sobre a ordem política, sobre três questões econômicas e sobre a educação.
3.1. Política. No que se refere à ordem política, Calvino reconhecia a igreja e o estado como esferas distintas que deviam cooperar estreitamente para edificar uma sociedade cristã. Portanto, ao contrário dos anabatistas daquela época, ele defendia um elevado grau de envolvimento por parte dos cristãos na vida política. “Ninguém deve duvidar que a autoridade civil é uma vocação”, diz Calvino, “não somente santa e legítima diante de Deus, mas também a mais sagrada e de longe a mais honrosa de todas as vocações em toda a vida dos homens mortais” (Institutas 4.20.4).  Os cristãos devem honrar as autoridades como “ministros e representantes de Deus” (4.20.22). Elas devem orar pelos magistrados civis e obedecê-los, até mesmo os tiranos, a menos que tal obediência resulte em uma desobediência direta da vontade de Deus. E a igreja tem a responsabilidade profética de advertir as autoridades quando elas erram e exortá-las a cumprirem os seus deveres. Em seu comentário de Amós 8.4, Calvino escreve: “Com freqüência os governan- tes são culpados de muitas coisas; essa é a razão pela qual os profetas se voltam contra eles de maneira tão contundente e rigorosa”. Os porta-vozes proféticos de hoje, diz Calvino, são primariamente os ministros da igreja. É seu dever clamar contra toda injustiça praticada pelo estado, particularmente no que se refere ao tratamento dos pobres e dos fracos.
Qual é o dever dos governantes civis? Acima de tudo reconhecer que “foram ordenados ministros da justiça divina”.             O seu tribunal é “o trono do Deus vivo” e eles são “representantes de Deus” (4.20.6). Como tais, é seu dever promover a justiça, a segurança e a paz na sociedade, e especialmente defender os pobres e os fracos contra os ricos e poderosos. O Salmo 82.3 diz: “Fazei justiça ao fraco e ao órfão, procedei retamente para com o aflito e o desamparado”. Em seu comentário desse salmo, Calvino o aplica ao estado: “Um governo justo e bem-regulado se distinguirá por preservar os direitos dos pobres e dos afligidos”.
Mas também é tarefa do governo, Calvino acreditava, promover e proteger a verdadeira religião na sociedade. “Os santos reis”, ele escreve, “são grandemente exaltados nas Escrituras porque restauraram o culto a Deus quando o mesmo estava corrompido ou destruído, ou cuidaram da religião para que por meio deles ela pudesse florescer pura e incontaminada” (4.20.9). Aqui, evidentemente, Calvino mostra ser um homem do seu tempo, refletindo mil anos de busca de um estado cristão no Ocidente. Porém, o que devemos observar é não tanto as conclusões a que ele chega aqui, mas o fato de que ele está se esforçando no sentido de formular uma abordagem conscientemente bíblica e cristã da dimensão política da sociedade.
3.2. Economia. Como outros líderes da Reforma, Calvino rompeu com a tradição medieval de elevar a “vida contemplativa” acima da “vida ativa” do trabalho diário. O trabalho, diz Calvino, é uma atribuição de Deus pela qual os indivíduos servem ao bem-comum. Deus nos criou não somente como indivíduos, mas como indivíduos em comunidade. Dependemos uns dos outros e devemos servir uns aos outros com os diferentes dons que nos foram dados. Portanto, todas as formas de trabalho são de igual valor e são igualmente agradáveis a Deus se beneficiam de algum modo a comunidade e não contradizem a Palavra de Deus. Não trabalhar quando se tem a capacidade de fazê-lo é algo contrário à Palavra de Deus. Mas, ao mesmo tempo, não proporcionar trabalho para aqueles que são capazes também é errado. Assim sendo, Calvino e a cidade de Genebra iniciaram um programa de obras públicas para os milhares de refugiados que estavam afluindo para aquela cidade.
Calvino também aplicou a perspectiva do evangelho à questão dos salários. Para o empregado, o trabalho deve ser entendido como algo feito em primeiro lugar não pelo dinheiro, mas para a glória de Deus. De fato, as pessoas não têm realmente um direito à remuneração; qualquer salário que recebemos é na realidade uma expressão da graça de Deus para conosco – gratuita, imerecida. Porém, do ponto de vista do empregador, o salário deve ser justo. Afinal, o que está ocorrendo é uma dispensação da graça divina e o empregador é um instrumento desse processo. Na verdade, para um empregador cristão, pagar o salário mínimo legal não é suficiente. Como disse Jesus, devemos sempre fazer aos outros como queremos que nos façam.
Finalmente, Calvino fez uma nova abordagem à usura ou à cobrança de juros. A igreja havia proibido toda usura na Idade Média, muito embora algumas pessoas continuassem a praticá-la. Todavia, Calvino argumentou que a Bíblia não proíbe toda forma de usura. As proibições bíblicas contra a mesma precisam ser lidas em seu contexto. A usura foi proibida entre os israelitas da velha dispensação, diz Calvino, porque lhes era fácil realizar negócios sem ela. Mas aquelas circunstâncias mudaram em nossos dias. E a instrução de Jesus, “emprestai, sem esperar nenhuma paga” (Lucas 6.35), visava orientar o nosso relacionamento com os pobres, não com todas as pessoas. Seja como for, Calvino acreditava que quando se tratava de emprestar dinheiro a juros, o nosso comportamento devia ser governado acima de tudo pela lei bíblica do amor. Somente porque uma coisa é legal, isso não a torna amorosa ou justa. Além disso, uma vez mais, nunca devemos fazer algo que não esteja de acordo com a Lei Áurea.
3.3. Educação. Para Calvino, a responsabilidade principal pela educação recaía sobre a igreja, e não sobre o estado, o que contrariava a tendência geral da Reforma no sentido de transferir a educação da igreja para o controle do estado. Sob a sua influência, os mestres eram nomeados pelos pastores da cidade, deviam submeter-se à confissão de fé de Genebra e estavam sujeitos à disciplina eclesiástica. Calvino chegava a considerar o “mestre de teologia” como um quarto ofício da igreja, ao lado do pastor, do presbítero e do diácono.
O programa educacional que Calvino ajudou a implantar em Genebra tinha um forte componente humanista, isto é, uma grande ênfase no estudo de antigos textos gregos e romanos. Por quê? Em primeiro lugar, porque para Calvino o propósito básico da educação superior, pelo menos, era preparar homens para o ministério do evangelho ou para o serviço público. Essas profissões requeriam pessoas que pudessem pensar bem, falar bem e escrever bem. Quem poderia oferecer um melhor modelo para isso senão os grandes pensadores, oradores e autores do mundo antigo?
Porém, Calvino se voltava para os clássicos por outras razões além do pensamento claro e da retórica refinada. Ele também acreditava que havia verdades a serem encontradas nos antigos autores não-cristãos, verdades que poderiam ajudar-nos a compreender o mundo de Deus e a Palavra de Deus. Como ele diz nas Institutas:
Sempre que nos defrontamos com essas questões nos escritores seculares, que essa admirável luz da verdade que neles brilha nos ensine que a mente do homem, embora decaída e pervertida de sua integridade, no entanto está revestida e ornamentada com os excelentes dons de Deus. Se consideramos o Espírito de Deus como a fonte única da verdade, não rejeitaremos a própria verdade nem a desprezaremos onde quer que ela se manifeste, a menos que desejemos desonrar o Espírito de Deus. (2.2.15)
É por isso que Calvino fazia os estudantes de sua academia lerem antigos autores não-cristãos como Virgílio, Cícero, Ovídio, Sêneca, Lívio, Xenofonte, Políbio e Homero. Na realidade, o professor de grego da academia não ensinava o Novo Testamento grego (isso era feito pelo professor de teologia), mas textos antigos de Platão e Aristóteles sobre ética. Evidentemente, o verdadeiro conhecimento de Deus, diz Calvino, só é possível quando a pessoa foi regenerada pelo Espírito Santo e vê Deus revelado nas Escrituras. Porém, usando os “óculos” das Escrituras, podemos prosseguir para o aprendizado do mundo não-cristão e encontrar muitas coisas verdadeiras e úteis no sentido de preparar os crentes para o serviço cristão. A lente da revelação da Palavra de Deus nos ajuda a focalizar bem a verdade que se encontra no mundo de Deus.
Conclusão
Como, pois, a teologia de Calvino é relevante para o século 21? Não em primeiro lugar por causa do seu conteúdo. Embora certamente haja muito o que se aprender desse conteúdo, existem também aspectos em que é limitada a sua utilidade para o mundo moderno. A relevância da teologia de Calvino reside, acima de tudo, na maneira como ele aborda a tarefa teológica, naquilo que ele considera o propósito da teologia e em como ele empreende a elaboração da teologia. O método de Calvino pode servir como modelo para os teólogos cristãos atuais pelo menos de três maneiras.
Primeiramente, a sua teologia é bíblica. Ela reconhece a Escritura como a Palavra de Deus inspirada e infalível, investida de autoridade suprema para todo o pensamento teológico e a vida cristã. Não somente uma parte da Escritura, mas toda ela, Antigo e Novo Testamento. Como tal, a teologia de Calvino inicia onde começa o Antigo Testamento, com a doutrina da criação. Visto que a salvação é de fato a restauração da criação, os cristãos são conclamados não a evitarem este mundo ou a fugirem dele, mas a servirem a Deus como seus agentes de restauração e reforma neste mundo.
Em segundo lugar, a teologia de Calvino é prática, isto é, está sempre voltada para a piedade cristã. Para ele a teologia não pode ser simplesmente um exercício teórico. Ela não é abstrata, especulativa ou altamente filosófica. Ela nunca é um fim em si mesma. Antes, a teologia sempre deve se relacionar com a vida e a experiência cristã. O conhecimento sobre Deus deve levar ao conhecimento de Deus, isto é, uma resposta a Deus de reverência, amor, obediência e confiança.
Finalmente, a teologia de Calvino é holística. Para ele, o evangelho se dirige não somente às almas ou a pessoas individuais ou às chamadas questões “espirituais”. Ele se dirige à pessoa integral e a todos os aspectos da vida e da sociedade – coisas como exercer um cargo público, praticar desobediência civil, riqueza e pobreza, trabalho, salários, usura, educação, casamento e vida familiar. É por essa razão que um estudioso denominou Calvino não somente um reformador, mas um “revolucionário construtivo”.
Em suma, a teologia de Calvino nos faz lembrar a fonte (a Escritura), o propósito (a piedade) e o escopo (toda a vida) do trabalho teológico. Parece-me que esses lembretes são tão relevantes para a tarefa teológica em nossos próprios dias e em nosso mundo quanto o foram na Genebra de Calvino há quase 500 anos.
* Professor de Teologia Sistemática no Calvin Theological Seminary, em Grand Rapids, Michigan. Palestra proferida no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper no dia 28 de agosto de 2003. Texto traduzido por Alderi Souza de Matos.